PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – “Num mundo em que algoritmos digerem montanhas de textos e regurgitam parágrafos sem espinhas, o papel do escritor talvez seja lembrar que a arte da língua reside justamente no desvio, no artifício humano. De que vale uma prosa que não tropeça no próprio rabo, que não saboreia a origem de uma palavra, que não se permite brincar com o risco de vida da expressão ‘risco de vida’?”

Quem escreveu isso aí foi e não foi Sérgio Rodrigues. O autor de vários livros, entre eles o recém-lançado “Escrever É Humano”, teve suas palavras emuladas por uma inteligência artificial a pedido de Rodrigo Tavares, professor da lusitana Nova School of Business and Economics e também colunista do jornal.

A dupla debateu o futuro da literatura na era da inteligência artificial, num papo mediado pela jornalista Victoria Damasceno na Casa Folha, nesta sexta (1º), como parte da programação paralela da Flip.

Tavares está dando aula sobre o tema, justamente por temê-lo e se sentir ignorante sobre ele, disse. Contou ter encomendado a agentes artificiais um relatório analisando o estilo de escrita de Sérgio Rodrigues.

A máquina vasculhou tudo do brasileiro, de colunas publicadas na Folha de S.Paulo a aparições no programa Conversa com Bial. Detectou cadência narrativa, gosto por metáforas futebolísticas, o uso estratégico de perguntas retóricas. Tavares brincou que agora é “proprietário do espírito do Sérgio Rodrigues”.

Rodrigues disse que achou o resultado um pouco pedante, monocórdio, mas “nada mal”. Sobretudo assustador. “Pode ser que algum dia a IA escreva um romance bom o bastante simulando Faulkner que nosso olhar de leitor não saiba distinguir.”

Essa revolução tecnológica impacta na juventude nativa digital. “Escrever para as novas gerações é muito fácil. Difícil é ser lido por elas.” A provocação de Rodrigues não foi a única durante o encontro.

Ele fez uma defesa do que chamou de “partido da escrita humana”. Para o autor, insistir na palavra escrita por carne e osso virou, antes de tudo, um posicionamento político. “Vai exigir uma grande dose de força de vontade continuar apegado a uma escrita exclusivamente humana”, disse.

Se a IA veio para ficar, o que nos resta? Negociar, responde Rodrigues. Até porque “se a gente não abrir o olho e não tomar muito cuidado, vai ser o maior trator já passado sobre a espécie humana em toda a história”.

A questão, para ambos, é menos se a máquina pode escrever e mais quem lerá. Damasceno, a mediadora, trouxe a inquietação de uma turma que já nasceu sob o frenesi digital. “É uma geração acostumada com dopamina rápida, algo que nem sempre a literatura vai entregar.”

Para Tavares, o futuro terá livros “orgânicos”, feitos à mão. “Talvez daqui a alguns anos nós entremos na livraria aqui da Flip e tenha uma prateleira com aqueles livros que são escritos por seres humanos. E são artigos de coleção, são caros, é uma mala Louis Vuitton com pele de crocodilo feita por artesãos no sul da Itália. Esse vai ser o livro.”

Outra possibilidade serão obras feitas sob medida por IA para um único leitor. “Você terá uma conversa pessoal com Camões, ou um texto que só você pode ler”.