SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Morreu, nesta quinta-feira (31), Bob Wilson, diretor que transitou entre o teatro e a ópera e se tornou um dos principais encenadores do mundo, ao longo de 60 anos de carreira, com seu estilo minimalista, que se refletia também no trabalho como dramaturgo, iluminador, pintor e escultor.
Nascido no Texas em 1941, ele se mudou para Nova York nos anos 1960 e se tornou uma das principais referências do teatro experimental no mundo, inclusive com diversas montagens no Brasil.
A morte foi confirmada pelo estúdio de Wilson, o The Watermill Center, nas redes sociais. O espaço funcionava para ele como uma espécie de usina de projetos, trabalhando em vários simultâneos.
Wilson se formou em arquitetura e sempre lembrava não ter passado por qualquer escola de artes cênicas, que sempre considerou muito restritas. “Elas só nos ensinam a decorar”, dizia ele.
Enveredou pelas artes plásticas e encontrou no teatro e na ópera um modo de reunir todas as formas artísticas. Célebre pelo apelo visual e pela encenação pontuada por silêncios, ficou conhecido pelo perfeccionismo, assinando também a cenografia e o desenho de luz de seus espetáculos.
Suas montagens foram de Shakespeare a contemporâneos como Heiner Müller, de Umberto Eco a poetas concretistas como Christopher Know- les, e, na música, de óperas de Wagner a parcerias com Lou Reed e David Byrne.
Nos anos 1970, fez parte de uma trupe de encenadores, que incluía Peter Brook, que se notabilizou pelos espetáculos longos, com uma atenção especial ao gesto, ao vazio e às pausas -uma ruptura com a percepção automatizada, como afirmava o professor e teórico alemão Hans-Thies Lehmann.
Caso, por exemplo, da ópera “A Vida e Época de Dave Clarke”, no qual enormes “tableaux vivants”, ou quadros vivos, se moviam ao longo de mais de 12 horas. Originalmente, o espetáculo, que foi encenado em São Paulo, fala de Josef Stálin, mas o título foi alterado para evitar problemas com a censura.
Um marco foi a ópera “Einstein on the Beach”, de 1975, uma colaboração com o compositor Philip Glass. A obra é inspirada na vida e na carreira de Albert Einstein, porém sem uma história linear ao longo de quatro horas de apresentação. Ela iniciou uma trilogia de colaborações entre Wilson e Glass, que se completou com “Satyagraha”, de 1980, e “Echnaton”, de 1984.
Em 1967, Wilson adotou Raymond Andrews, um garoto de 13 anos que encontrou sendo agredido por um policial, nas ruas de Nova Jersey. Autista, disléxico e na época surdo e mudo, o garoto passara dos 11 aos 13 anos em uma instituição especializada, e Wilson decidiu tirá-lo dessa vida.
Wilson lembrava que a experiência com o jovem foi fundamental para a sua carreira, uma vez que ela o permitiu fazer diversos testes com o uso do som e suas relações com o público.
No Brasil, trouxe ainda outras diversas montagens, dentre elas, sua versão de “A Última Gravação de Krapp”, de Samuel Beckett, além da “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht, e “Lulu”, de Frank Wedekind e trilha sonora de Lou Reed -todas estas com a célebre companhia alemã Berliner Ensemble.
A identificação de Wilson com Beckett sempre foi marcante, seja na economia da linguagem, no desprezo pela narrativa convencional ou no jogo dialético entre tempo e espaço como recurso teatral. Mas ele só se aventuraria pela obra do irlandês após 40 anos de carreira, quando montou “Dias Felizes”, originalmente em 2008.
Em 2013, montou “A Dama do Mar”, com elenco brasileiro, no ano seguinte trouxe “A Velha Senhora”, com Mikhail Baryshnikov e William Dafoe -o espetáculo reforçou sua filiação a temas históricos como o regime stalinista, e explorou o terror imposto pelo governo. Na ocasião, disse que a poluição dos textos teatrais era um defeito comum a muitos dramaturgos.
Já em 2016, produziu no Brasil o musical “Garrincha”, desenvolvido ao longo de dois anos no Watermill Center, misturando diversas referências, como a biografia “Estrela Solitária”, de Ruy Castro, filmes e fotografias, até poemas, como um haicai de Nicolas Behrm -“Nem tudo o que é torto é errado. Veja as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado”.
O espetáculo descartava o realismo, já que Wilson não conhecia o futebol -o jogador era representado como um bailarino de pernas tortas, repassando pontos trágicos de sua biografia, como o alcoolismo e a morte na miséria, com uma abordagem poética.
Em 2012, estreou na Alemanha “Conferência sobre o Nada”, a partir da obra de John Cage. Apresentada em São Paulo em 2017, o espetáculo refletia a influência do músico em suas encenações -Wilson sempre começava a dirigir os espetáculos apenas com movimentos, sem diálogos ou som, e só depois acrescentava as falas.
“Tento ao máximo respeitar esse silêncio estruturado do Cage. Para mim, o que é revolucionário é o espaço que ele colocou entre as palavras. Deu-nos tempo para pensar, para refletir”, disse Wilson à Folha de S.Paulo. “Cada vez mais, no mundo contemporâneo, a gente precisa desses espaços.”
Wilson reforçou também a relação com as artes plásticas com o musical “A Vida e a Morte de Marina Abramovic”, sobre a célebre artista performática, que tinha no elenco o ator Willem Dafoe, o músico Antony Hegarty, do Antony and the Johnsons, três cantores siberianos e mais 16 dobermans.
Tudo começou quando Abramovic pediu a Wilson que dramatizasse seu enterro, ideia que foi crescendo e ganhou as dimensões da vida inteira. Da infância na antiga Iugoslávia até a morte depois de uma carreira retumbante nas artes visuais, pautada por performances de longa duração e exaustivo esforço físico.
O encenador também ajudou a revitalizar a carreira de Winona Ryder, por quem se apaixonou quando ela trabalhava como babá do seu amigo e músico americano Tom Waits. Na época, a artista foi flagrada roubando uma carteira e sua carreira ia de mal a pior. Ela se tornou uma das participantes de sua exposição de fotos “Voom Portraits”, que foi exibida no Sesc Pinheiros em 2008, que tinha ainda imagens de figuras como Isabella Rosselini e Brad Pitt.
O último trabalho de Wilson estreou, no ano passado, em Florença -“Pessoa, Since I’ve Been Me”, inspirado no poeta Fernando Pessoa, retraçando sua trajetória, da vida até a morte, costurando trechos de seus poemas. Apesar de tratar de um dos maiores nomes da língua portuguesa, Wilson encerrou o espetáculo com um verso escrito em inglês, escrito pouco antes da morte do poeta, em 1935 -“I know not what tomorrow will bing”, não sei o que o amanhã trará.