SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um vídeo recuperado do celular de um socorrista morto na Faixa de Gaza ao lado de pelo menos outros 15 trabalhadores humanitários coloca em xeque a versão dada por Israel para o ataque mais mortal a funcionários da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho em todo o mundo desde 2017.
Na madrugada do dia 23 de março, os socorristas trabalhavam para atender vítimas do conflito no sul da Faixa de Gaza quando o Crescente Vermelho palestino perdeu contato com os funcionários, de acordo com um comunicado da Cruz Vermelha.
Eles ficaram desaparecidos até o último domingo, quando uma operação de resgate recuperou os corpos em uma vala comum perto de Rafah, segundo o Ocha (Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU).
Na ocasião, o Exército de Israel negou as acusações. O tenente-coronel Nadav Shoshani, um porta-voz militar israelense, afirmou que as tropas abriram fogo contra veículos que não tinham autorização prévia das autoridades de Tel Aviv para circular e estavam com as luzes apagadas afirmação que não condiz com as imagens obtidas pela agência de notícias AFP.
O vídeo mostra os últimos momentos da equipe, de acordo com o Crescente Vermelho palestino. Nele, ambulâncias claramente sinalizadas e com luzes de emergência piscando são alvejadas com tiros.
Na gravação, aparentemente feita do interior de um veículo em movimento, aparecem um caminhão de bombeiros vermelho e ambulâncias. Os veículos param ao lado de outro na beira de uma estrada, e dois homens uniformizados saem. Momentos depois, começa um intenso tiroteio.
No vídeo, ouvem-se vozes que seriam de dois médicos. “O veículo, o veículo”, diz um. “Parece um acidente”, afirma outro. Uma rajada de tiros ocorre segundos depois, e a tela fica preta.
O vice-presidente do Crescente Vermelho palestino, Marwan Jilani, afirmou na sede das Nações Unidas. Entre os mortos estão oito membros da equipe do Crescente Vermelho Palestino, seis membros da agência de defesa civil de Gaza e um funcionário da agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA).
Além do vídeo, o relato do único sobrevivente do ataque, o voluntário do Crescente Vermelho Munther Abed, também fragiliza a versão de Tel Aviv sobre o caso. Ele afirmou ao jornal britânico The Guardian que estava na primeira ambulância que chegou ao distrito de Hashashin, em Rafah, para atender a pessoas feridas por um ataque aéreo.
Embora o carro estivesse com as luzes ligadas, segundo Abed, militares israelenses abriram fogo, matando seus dois colegas que estavam sentados na frente do veículo ele diz ter sobrevivido porque estava na parte de trás do carro e se abaixou.
“A partir do momento em que o tiroteio começou, imediatamente me joguei no chão da ambulância. Não ouvi nada dos meus colegas, exceto os sons de seus últimos momentos, ouvindo-os dar seu último suspiro”, disse ele. “De repente, tudo ficou quieto, a ambulância parou, e as luzes se apagaram. A porta do motorista se abriu e ouvi vozes falando em hebraico. Medo e pânico tomaram conta de mim, e comecei a recitar algumas citações do Alcorão.”
Ele relata ter sido espancado em seguida. “Eles me arrastaram para fora da ambulância, mantendo-me de bruços para evitar ver o que tinha acontecido com meus colegas”, afirmou. “Eles me jogaram no chão, e o interrogatório começou. Eu suportei tortura severa, incluindo espancamentos, insultos, ameaças de morte e sufocamento quando um soldado pressionou um rifle contra meu pescoço.”
De onde estava, Abed disse ter visto outros carros de socorristas chegando ao local, incluindo ambulâncias e carros da Defesa Civil. Todos foram alvejados, segundo ele.
Um funcionário do Crescente Vermelho, Assad al-Nassara, continua desaparecido, embora Abed tenha dito que o viu vivo, sendo detido pelos militares no local onde ocorreram os assassinatos.
Um médico de Khan Younis, Ahmed al-Farra, disse ter testemunhado a chegada dos restos mortais, mostrando fotos ao Guardian em que corpos aparecem com as mãos amarradas.
“Eu pude ver três corpos quando eles foram transferidos para o hospital Nasser. Eles tinham balas no peito e na cabeça. Foram assassinados. Eles tinham as mãos amarradas”, disse Farra ao jornal. Segundo o médico, “eles os amarraram para que não pudessem se mover e então os mataram”.
O primeiro corpo foi recuperado quatro dias após o incidente, e o restante foi resgatado no domingo passado (30). Segundo a FICV (Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho), o acesso à área vinha sendo negado nos dias anteriores.
Israel afirmou à ocasião do episódio que nove membros do Hamas e do Jihad Islâmico foram mortos no incidente, embora nenhum outro corpo tenha sido resgatado da vala no local. Abed negou essa afirmação em entrevista à emissora britânica BBC News. “Isso é totalmente falso. Todos nas equipes eram civis”, diz ele. “Não pertencemos a nenhum grupo militante. Nosso principal dever é oferecer serviços de ambulância e salvar vidas. Nem mais, nem menos.”
O jornal The New York Times procurou o Exército de Israel antes de publicar o vídeo do socorrista. Inicialmente, a Força Armada não se manifestou. Depois da divulgação das imagens, enviou nota ao jornal na qual disse que o episódio está “sob investigação minuciosa”. “Todas as acusações, incluindo a documentação em circulação sobre o incidente, será detalhadamente e profundamente examinada para entender a sequência dos eventos e a abordagem diante da situação”, segundo o comunicado.