SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Cerca de 15 anos mais velho do que seus colegas de turma na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP, Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield contava uma história mirabolante sobre sua vinda ao Brasil. O juiz, que segundo o Ministério Público se chama na verdade José Eduardo Franco dos Reis, dizia aos colegas que resolveu ficar no país depois por de ter se apaixonado por uma jovem da Bahia.
O relacionamento não tinha dado certo, na versão dele, e Edward teria decidido viver no Brasil e levar uma vida com menos luxo do que levava na Inglaterra. A história não levantava dúvidas dos colegas na época, muitos deles recém-saídos da adolescência.
Segundo os colegas, por ser mais velho, o juiz não era próximo da maioria dos colegas. Ele cursou a faculdade no período noturno. Uma colega destaca que ele era bastante comunicativo e simpático com os outros alunos.
Ela também destacou a inteligência do antigo colega. “Ele se formou conosco em 1992 e passou na magistratura em 1995, três anos depois de formado, que era o período mínimo de profissão na época para prestar um exame desses”, afirma.
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A história de Edward movimentou os grupos de WhatsApp de ex-alunos da faculdade, embora muitos alunos, principalmente da manhã, só se lembrarem dele em razão do nome considerado diferente que constava no convite de formatura da turma. Outros juízes que conviveram com ele evitaram fazer comentários sobre o antigo colega.
O caso também provocou a curiosidade em Águas da Prata, cidade paulista de pouco mais de 7.000 habitantes, na divisa de Minas Gerais. E, entre os moradores “da Prata”, como os locais costumam se referir, a questão nem era com o inglês de nome diferente, mas com o que seria o nome verdadeiro do juiz. A certidão de nascimento de José Eduardo Franco dos Reis indica que ele nasceu em 1958 na cidade, filho de Vitalina Franco dos Reis e José dos Reis.
Nascido em Águas da Prata e candidato a prefeito da cidade pelo PV do ano passado, o advogado Luiz Tarcísio Teixeira Ferreira diz que a família é desconhecida na cidade. Nascido em 1959, ele é apenas um ano mais novo que o juiz. Teixeira Ferreira foi secretário dos Negócios Jurídicos da Prefeitura de São Paulo na gestão Marta Suplicy (PT). Segundo ele, existem duas famílias Reis na cidade, mas em nenhuma delas há uma Vitalina e um filho chamado José Eduardo. “Até existia um José Reis, que já morreu, mas não tinha relação com essas pessoas”, afirma.
Como na cidade não havia sequer maternidade na época e as pessoas só eram registradas lá se nascessem em casa, com a ajuda de parteiras, ou se fosse de alguma família local. “Eu e meus irmãos somos todos registrados na Prata, mas só eu nasci aqui, porque não conseguiram levar a minha mãe para maternidade a tempo. Os demais nasceram na maternidade de São João da Boa Vista, maior cidade da região”, diz.
O advogado afirma que o juiz não estudou na escola local. “Na época, existia uma única escola na cidade e apenas uma classe por série. Eram salas com carteiras duplas”, lembra. Por isso, ele e outros moradores da cidade da mesma geração acreditam que Reis não passou sua infância lá.
As investigações não apontam nenhum indício de que o documento de registro original com nome Reis tenha alguma fraude. A suposição é que ele possa ser filho de uma família que estava de passagem pela região e tenha nascido em alguma fazenda ou povoado próximo.