SÃO CARLOS, SC (FOLHAPRESS) – Os bonobos ou chimpanzés-pigmeus, famosos por serem os primos “paz e amor” do Homo sapiens, também têm capacidades comunicativas que lembram a linguagem humana, indica um novo estudo.

De acordo com o trabalho, conduzido por pesquisadores europeus, as vocalizações emitidas pelos primatas se combinam de forma relativamente sofisticada, o que permitiria a produção de novos sentidos que vão além da simples soma dos sons emitidos durante a comunicação entre eles.

A pesquisa, que saiu na última quinta-feira (3) no periódico especializado Science, é mais um exemplo de uma série de estudos dos últimos anos sobre as capacidades linguísticas surpreendentes de outros animais –não só primatas como também cetáceos (o grupo das baleias e golfinhos), elefantes e aves, entre outros.

“Estamos demonstrando que muitas capacidades antes consideradas exclusivas da linguagem humana na verdade existem em outras espécies”, disse à Folha a autora principal do estudo, Mélissa Berthet, do Departamento de Antropologia Evolucionista da Universidade de Zurique, na Suíça.

“Isso sugere que as diferenças-chave entre a linguagem humana e a comunicação animal podem não vir da presença ou ausência de certas habilidades, mas sim do grau de sua complexidade.”

Junto com outros dois colegas, Berthet estudou três comunidades de bonobos selvagens que habitam a reserva de Kokolopori, na República Democrática do Congo (África Central). A pesquisadora acompanhava os animais durante períodos que iam de 12 a 15 horas por dia, gravando os sons que emitiam e observando seu comportamento. Toda vez que um dos bichos emitia um chamado, ele era classificado numa lista com mais de 300 parâmetros contextuais.

“Eu anotava, por exemplo, se havia um grupo vizinho de bonobos por perto, se havia comida, se o emissor estava comendo, descansando ou catando piolhos, e o que acontecia imediatamente depois da vocalização: algum novo indivíduo entrava no grupo? Eles começavam a se deslocar?”, conta ela.

Esse trabalho sistemático permitiu que ela entendesse o uso consistente dos diferentes tipos de vocalizações em contextos específicos e, portanto, estimasse com bom grau de probabilidade o “significado” dos sons.

A pesquisadora conta que, em outro estudo, liderado por Franziska Wedgell, a equipe já tinha estabelecido que os bonobos adultos têm 11 tipos diferentes de chamados. As vocalizações podem ser combinadas em 38 duplas de sons diferentes e muitas outras que envolvem mais do que dois chamados. No estudo publicado na Science, a equipe resolveu se concentrar nos chamados e combinações mais comuns (7 e 19, respectivamente).

De fato, para o trabalho, a combinação de vocalizações era o mais importante. O objetivo da equipe era estudar a chamada composicionalidade, ou seja, a maneira como a junção de dois sons, cada qual com seu próprio sentido, dá origem a um novo conjunto com seu sentido próprio, que é influenciado pelas partes componentes.

Um dos exemplos de composicionalidade dado pelos cientistas no estudo é a expressão “dançarino loiro”, ou seja, alguém que é dançarino e também tem cabelos loiros. Esse seria um exemplo de composicionalidade trivial, porque cada palavra contribui para o sentido da expressão de forma independente da outra: quem é um dançarino loiro também pode ser um “irmão loiro” ou um “amigo loiro”, por exemplo.

Só que existe também a composicionalidade não trivial. Um exemplo seria a expressão “mau dançarino”. Nesse caso, não é possível simplesmente trocar o substantivo: um mau dançarino não é necessariamente também um “mau amigo” ou “mau pai”, digamos. Ou seja, nesse caso, o sentido de “mau” não é independente do de “dançarino”, mas complementa a segunda palavra.

A composicionalidade trivial já tinha sido registrada em alguns contextos nas vocalizações de primatas e aves, por exemplo. Mas a versão não trivial dessa característica da linguagem humana nunca tinha sido observada nos sons usados por outros animais. Até agora –foi o que estudo com os bonobos congoleses demonstrou, segundo Berthet e seus colegas.

Para ser mais exato, quatro combinações registradas pela equipe têm propriedades composicionais –dessas, três apresentam composicionalidade não trivial. Entre os exemplos está a junção de um chamado que, em geral, tem o sentido de “Venha cá!” com outro que corresponderia a “Preste atenção em mim!”. Juntas, as vocalizações são usadas para reunir um grupo de bonobos que vai viajar pelo território.

Para Berthet, descobertas como essas estão surgindo porque linguistas e biólogos têm colaborado de forma cada vez mais intensa nos últimos anos. “Por enquanto, só a linguagem humana exibe todos os componentes centrais de uma linguagem real –composicionalidade, semântica, recursividade, hierarquia etc., e no mais alto nível de complexidade. Entretanto, conforme a nossa compreensão sobre sistemas comunicativos de outros animais vai se aprofundando, a diferença entre nós e eles vai encurtando.”