SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Problemas conhecidos de algumas regiões da cidade de São Paulo, como furtos nas áreas centrais e homicídios em áreas periféricas já começam a deixar marcas em 2025, como mostram dados do primeiro bimestre divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do estado.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, é preciso aumentar a investigação para enfrentar crimes como homicídios e ganhar mais velocidade na redistribuição do policiamento nas diferentes regiões da cidade.
Os crimes de homicídio, que somam 95 vítimas nos dois primeiros meses de 2025, mostram que a maioria ocorre em áreas distantes do centro, como Lajeado, na zona leste, com sete mortos, e Campo Limpo e Jardim das Imbuias, ambos distritos da zona sul, com cinco óbitos cada um. As tentativas de homicídio, em alta de 51% (136 casos em 2025 ante 90 no primeiro bimestre de 2024), também parecem indicar esse padrão.
O mesmo espraiamento ocorre com registros de estupro, com Perus, na zona norte, liderando com 20 ocorrências, seguido pelo Capão Redondo, no sul paulistano, com 24 casos denunciados, e Jardim Miriam, também na porção sul, com 15.
Roubos tiveram, em distritos fora da região central da cidade, suas maiores marcas no bimestre. Pinheiros (602 casos), na zona oeste, e Campo Limpo (582) e Capão Redondo (539), ambos na zona sul, foram as três regiões com mais ocorrências.
Os furtos, por outro lado, têm grande concentração no centro, indica o mapa, embora ainda haja a aparição de Pinheiros, com 1.546 ocorrências, como o terceiro pior registro.
Para Alan Fernandes, membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a saturação policial tem sido o grande trunfo contra roubos e furtos na região central. Essa estratégia, para ele, está fortemente ligada à Operação Delegada, em que a prefeitura custeia diárias de policiais de folga para que eles façam patrulhamento. Isso pode gerar, por outro lado, o espraiamento de roubos, que têm afetado, por exemplo, a população em bairros como Pinheiros.
“Essa ênfase no centro velho traz uma repercussão imediata no [centro] expandido. Ali se encontram valores agregados importantes do aparelho celular, como contas bancárias. O cara que praticava no centro migra rapidamente a outros locais.” Já o estado tem mais dificuldade de se adequar a essas migrações, segundo o pesquisador, para reorientar o policiamento.
Segundo Jonas Pacheco, coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, a incidência de policiamento em áreas com alto registro de furtos, por exemplo, tende a promover reduções, embora ele rejeite, ao menos para esse crime, a tese de deslocamento dessa mancha criminal a partir da saturação policial.
A prevenção de homicídios, segundo Pacheco, historicamente tem sido ligada ao controle feito pelo crime organizado. No caso paulista, a regulação que seria feita pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), o que deixaria a ação do estado em segundo plano.
“Sem um diagnóstico preciso, se não se sabe quem morre, onde morre e por que morre, fica difícil impedir. A chance de incidir errado é muito grande.”
Segundo Fernandes, é preciso investigar rápido e investir, fora do âmbito policial, em estratégias de prevenção de assassinatos. “Na atual configuração de São Paulo, essas dinâmicas são muito mais domésticas vizinhos, amigos, familiares do que ligadas ao tráfico de drogas. Primeiro, seria importante criar instâncias para tratar conflitos, com Judiciário presente e acesso à informação.”
Esse tipo de estratégia também deve ajudar contra crimes sexuais, muitos ocorridos dentro de casa, lembra Pacheco. “Além da expansão de patrulhas [da lei] Maria da Penha, há outros pontos para ação, como a dependência financeira e se a mulher tem filhos, porque há dificuldade de romper esse vínculo.”
Já os latrocínios, como mostrou a Folha, embora sejam numericamente poucos, também chocam pela violência e deveriam, assim como homicídios, ser investigados rapidamente. No caso do agente de trânsito José Domingos da Silva, morto em 13 de março, o suspeito foi localizado e preso 13 dias depois após apuração do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais).
Os crimes que têm os veículos como alvo, por sua vez, mostram características diferentes: os roubos se espraiam, enquanto furtos tendem a aparecer mais nas estatísticas na parte central.
Para Fernandes, do Fórum, o roubo é mais propício para ocorrer em áreas próximas de rotas de fuga e de eventuais oficinas de desmanche ilegal, e tende a ser comunicado na hora em que o crime ocorre.
O furto de carros e motos, por outro lado, pode ocorrer e demorar a ser comunicado. “Tem mais a ver com onde a pessoa está indo. Foi de carro trabalhar e deixou estacionado, pode só comunicar o furto horas depois.”
Procurada, sobre a dinâmica desses crimes no primeiro bimestre, a Secretaria da Segurança Pública afirma que reorienta e intensifica o policiamento com base na análise das estatísticas criminais. O patrulhamento, diz, vem sendo ampliado com o uso de motocicletas, que dão mais agilidade na captura de suspeitos.
“Como resultado, os roubos na cidade de São Paulo caíram 13,5% no primeiro bimestre de 2025, em comparação ao mesmo período de 2024. No total, 7.349 infratores foram presos ou apreendidos no período um aumento de 13%. Também foram retiradas de circulação 359 armas de fogo”, afirma a nota da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Além disso, diz investir em inteligência policial, tecnologia e capacitação de agentes. “As polícias Civil e Militar atualizam constantemente suas estratégias com base em análise de dados e estatísticas”, afirma. Sobre os casos de violência contra a mulher, a pasta cita a atuação das sete Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) que funcionam 24h na capital e as iniciativas Cabine Lilás, para acolhimento exclusivo, e o aplicativo SP Mulher Segura, com botão de pânico para pedidos de ajuda e registro de boletins de ocorrência.