SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Mais de 2.000 desfiles separam a primeira semana de moda paulistana, em 1995, da São Paulo Fashion Week que começa neste domingo (6). Também separam uma indústria que copiava a estética europeia desta que, hoje, discute o valor do artesanato local, da sustentabilidade e da roupa sem gênero.

Criada por Paulo Borges, a temporada nacional de desfiles foi responsável por organizar, a partir dos anos 1990 e 2000, o calendário de lançamentos de inverno e verão. Depois de 30 anos, o evento se consolidou como um espaço em que todos podem sair ganhando, as marcas, os fornecedores e também os clientes. Essa estruturação de processos, que tem seu ponto alto na apresentação das coleções, ajudou a criar uma cultura de moda brasileira.

“Até então a gente não tinha uma cultura de moda estabelecida. Não tínhamos uma organização, uma conexão e um diálogo interdependente. Eram trabalhos muito solitários, muito individuais, o que fazia o processo muito mais difícil e muito mais lento, em todos os sentidos”, afirma Borges, idealizador da SPFW.

Agora, o evento inicia sua celebração de três décadas com uma edição enxuta de 17 desfiles —abertos só para convidados— no shopping JK Iguatemi e também em outros pontos da cidade.

A primeira edição do ano da SPFW, que acontece em abril e maio, é sempre menor do que a segunda, marcada para outubro, mas o evento de agora está especialmente reduzido. Para comparação, as três últimas primeiras edições do ano, em 2024, 2023 e 2022, tiveram 27, 30 e 38 desfiles, respectivamente. Segundo a organização do evento, a maior parte das marcas preferiu fazer apenas um desfile neste ano.

Entre os destaques deste ano, está a estreia de Leandro Castro, conhecido por construir suas peças com o fazer tecnológico e artesanal, e a MNMAL, de Flávio Gamaum, com estética sofisticada e preocupação sustentável.

Se o evento viveu seu auge nos anos 2000 e 2010, hoje encontra algumas dificuldades para manter a projeção internacional e ter a mesma popularidade de antes, de acordo com a jornalista e consultora de moda Lilian Pacce, que há três anos vive em Londres.

“Fazer moda no Brasil não é simples. O mercado brasileiro é muito peculiar, porque ao mesmo tempo que ele é autossustentável, pela dimensão territorial do Brasil, ele fica muito dependente dele mesmo. Ele não consegue quebrar as fronteiras. Não há verba nem apoio do governo”, diz Pacce.

Isso vai ao encontro do que acredita Borges. “Todas as políticas tributárias estão muito desatualizadas. Tem todo tipo de dificuldade possível para criar marca global no Brasil. A gente tem quantas marcas globais? Havaianas, a Melissa, agora a Farm que está crescendo. É muito pouco.”

A jornalista ainda credita a outro fator o isolamento da SPFW no mundo. Diferentemente das semanas de moda europeias, que são geridas por instituições —como a Federação de Alta-Costura e Moda, que organiza a Semana de Moda de Paris, ou o Conselho Britânico de Moda, da Semana de Moda de Londres—, a brasileira é uma iniciativa privada.

Isso faz com que, segundo a jornalista Lilian Pacce, a semana de moda brasileira não priorize o que é apresentado em suas passarelas. “O ideal seria que evoluísse para uma coisa mais institucional, onde o importante é o conteúdo e não a marca SPFW.”

Na sua opinião, isso contribuiria com a redução do impacto da mudança na indústria causada pela internet. “A imprensa do jeito que existia antes não existe mais. Então a cobertura é menos relevante do que antes e muito mais restrita do que antes. Quantos veículos sumiram, acabaram? Daí tem essa questão das redes sociais que colocou a moda num outro lugar.”

Mas Pacce também reconhece o valor do evento. “É muito importante existir. A gente precisa de um espaço que ajude o mercado a se organizar e se fortalecer.”

Nesse sentido, a estilista Heloisa Strobel concorda com a jornalista. À frente da marca Reptilia, ela faz seu segundo desfile na SPFW e já colhe os frutos desde a estreia no ano passado, quando viu o alcance da grife crescer.

“É um propulsor desse setor econômico aqui no Brasil. Para um desfile como o nosso acontecer, que dura mais ou menos dez minutos, só de ‘backstage’ tem mais de 120 profissionais envolvidos. Sem contar o número de costureiras, modelistas que fazem aquelas roupas”, diz Strobel.

Em sua coleção “Tectônica”, a designer olha para a superfície da Terra e para as camadas abaixo dela, com uma paleta voltada para os tons terrosos. Ela inova ao inserir estampas pela primeira vez em suas peças e destinar algumas delas para o público masculino.

“A gente quer mostrar o novo homem, atualizado, com menos preconceito, com mais abertura para novas criações de moda. Ele gosta de experimentar, usar peças femininas, e aproveita o guarda-roupa da amiga, da namorada.”

É no avesso da roupa, ou da construção de gênero, que também investe o estilista Walério Araújo. Com alfaiataria recortada e fluida, ele tenta romper as visões convencionais do que é se vestir como homem ou mulher.

Para isso, ele leva à passarela a influencer Maya Massafera, que passou por uma transição de gênero, com peças consideradas masculinas. “Com as roupas, podemos muitas vezes revelar lados que as pessoas não conseguem enxergar na gente”, afirma Araújo.

Para exaltar o feminino, por sua vez, o designer Weider Silvério faz uma ode às deusas e divas. Com inspiração nas Vênus da história da arte e nas figuras do pop atual, como Madonna, Cher e a brasileira Joelma, ele faz uma investigação sobre as silhuetas.

“Acho que o futuro é ancestral e feminino. Eu o consigo ver assim. Olhar para trás, para a ancestralidade e para o poder feminino. Eu sou um profissional que estou sempre rodeado de mulheres e penso que só elas podem mudar o mundo”, afirma Silvério.

Com o tema “Futuros Possíveis” e apenas três mulheres designers nesta edição, resta saber se a SPFW também acredita nesse horizonte guiado por mulheres.