SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As delegacias do Parque São Lucas e da Vila Alpina, ambas na zona leste de São Paulo e distantes cerca de dois quilômetros, registraram o maior aumento percentual de registros de roubos na cidade na comparação entre o primeiro bimestre deste ano e o de 2024.
O 42° DP (Parque São Lucas), na avenida do Oratório, viu as queixas saltarem 80% de um ano para o outro. Foram 182 registros neste ano contra 101 em 2024.
A situação é semelhante no 56° DP (Vila Alpina), localizado na rua Doutora Esmeralda Mendes Policene. O aumento foi de 62% nas notificações de roubos, com 151 queixas em 2025 ante 93 no primeiro bimestre do ano passado.
Na cidade como um todo foram 17.638 notificações de roubo contra 20.390 no ano anterior.
O roteiro dos crimes é bem conhecido na região, assim como em toda a cidade. Bandidos em motocicletas chegam, exibem armas, ameaçam e vão embora com pertences como celulares, bolsas, cartões e alianças. Por vezes, roubam veículos.
Situação semelhante à que ocorre, por exemplo, na área do 14° DP (Pinheiros), distrito com a maior quantidade de roubos nos dois primeiros meses do ano.
Na última segunda-feira (31), a comerciante Samanta Dal Mas testemunhou um episódio de violência no Parque São Lucas. Por volta das 19h, ela viu criminosos armados abordarem uma mulher que parou o carro no estacionamento em frente a sua escola de inglês.
Um garoto, que tentou ajudar a vítima, levou uma coronhada na cabeça e foi ameaçado de morte após se recusar a entregar o celular.
Samanta ligou para o 190. “Fiquei tão em choque que, na última frase, minha voz não saía”, lembra. Presidente da associação comercial local e também vítima de crime, ela organizou, no fim de fevereiro, uma reunião com a vizinhança para pedir mais policiamento.
Dois representantes, um do 42º DP e um do 56º DP, estiveram presentes, assim como cerca de 280 moradores. A maioria tinha um boletim de ocorrência recente em mãos, apesar de já terem sido desencorajados a prestarem queixa.
“Os policiais enxugam gelo, todo mundo sabe. Eles falam: A gente prende, mas semana que vem ele está de volta aí”, diz Samanta.
A reunião deu origem a um grupo de WhatsApp onde denúncias e vídeos das câmeras de segurança espalhadas pelo bairro são compartilhados. Samanta selecionou e compartilhou 18 deles com a reportagem.
Além disso, ela abriu uma petição online para pedir o aumento do policiamento ostensivo no bairro. Segundo a comerciante, o batalhão mais próximo tem apenas duas viaturas para atender a população da região. “Aí você liga para o 190 e eles vêm aqui só para dar orientação. Isso não resolve.”
Além dos assaltos, os furtos também cresceram, na comparação entre os dois períodos: alta de 24% no Parque São Lucas e 7% na Vila Alpina.
Em nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) disse que a comparação entre bairros e regiões distintas não é estatisticamente adequada, pois cada área possui características sazonais e geográficas específicas que podem influenciar os indicadores criminais.
“As forças de segurança seguem atuando intensamente no combate à criminalidade em toda a capital, inclusive, com reforço no patrulhamento pela Polícia Militar. Todo caso registrado é rigorosamente investigado pela Polícia Civil, que realiza operações estratégicas para desarticular quadrilhas especializadas em roubos patrimoniais, incluindo as que utilizam motocicletas para a prática de crimes”.
Segundo a pasta, São Paulo registrou, em fevereiro, o menor número de roubos dos últimos 14 anos. “Na comparação com o mesmo mês de 2024, houve uma redução de 15,7%. No acumulado do primeiro bimestre, a queda foi de 13,5%. No mesmo período 7.349 pessoas foram presas e 359 armas apreendidas.”
Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Guaracy Mingardi diz ser possível que uma ou duas quadrilhas estejam agindo nas duas regiões, dada a proximidade entre elas e o aumento de registros. Isso, prossegue, só poderia ser confirmado com o trabalho de apuração, no qual ele vê vários problemas.
Mingardi, que possui mais de 30 anos de experiência em investigação, explica que os ladrões agem onde se sentem confortáveis, em pontos em que sabem as rotas de fuga. Geralmente, eles moram a dois ou três bairros de distância do local do assalto. “Fazendo isso [investigação] você teria uma ideia do que aconteceu. Pode ser deslocamento porque a PM encheu barros vizinhos de viaturas.”