SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – José Eduardo Franco dos Reis, acusado de usar um nome falso ao longo da carreira como juiz no Tribunal de Justiça de São Paulo, fez uma viagem ao Reino Unido após o início do inquérito que resultou na denúncia contra ele por falsidade ideológica, segundo uma autoridade a par das investigações.

Ele já teria retornado ao Brasil, segundo essa autoridade, mas não foi encontrado na última vez em que foi procurado no endereço que forneceu à Polícia Civil.

O Ministério Público de São Paulo afirma que José Eduardo Reis é a verdadeira identidade de Edward Albert Lancelot Dodd-Canterbury Caterham Wickfield, que se apresentava como descendente de nobres ingleses e usou esse nome durante 23 anos de magistratura.

Ele teria criado uma carteira de identidade falsa em 1980, que só foi descoberta no ano passado, quando ele tentou obter a segunda via do documento numa unidade do Poupatempo na Sé, no centro da capital.

A viagem ao Reino Unido ocorreu após outubro de 2024. A investigação não confirmou as datas exatas dos voos de ida e de volta ao Brasil.

Reis prestou depoimento sobre o caso no dia 2 de dezembro na Delegacia de Combate a Crimes de Fraude Documental e Biometria, no centro. Ele foi denunciado em fevereiro deste ano.

Ao prestar depoimento, ele informou à polícia um endereço de residência na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Após ser indiciado pela Polícia Civil, oficiais de Justiça voltaram ao local para intimá-lo a ir até a delegacia para um interrogatório, mas ele não foi encontrado. Apesar disso, Reis não está foragido, uma vez que não há mandado de prisão contra ele.

Aposentado em abril de 2018, o magistrado recebe vencimentos do Tribunal de Justiça de São Paulo, pagos com o erário público. Em fevereiro, o tribunal pagou a ele o valor bruto de R$ 166.413,94. Em dezembro e janeiro ele recebeu R$ 187.427 e R$ 155.621, respectivamente.

No depoimento que prestou em dezembro, Reis declarou que Edward Wickfield é seu irmão gêmeo, que teria sido dado a outra família durante a infância. Disse também que só conheceu o irmão na década de 1980, após a morte de seu pai. Segundo ele, Wickfield era professor e retornou à Inglaterra após a aposentadoria.

Reis forneceu à polícia um endereço no bairro de West Kensington, em Londres, e um número de telefone para contato. Apresentando-se à autoridade como artesão, alegou que foi ao Poupatempo da Sé para renovar o RG a pedido do suposto irmão gêmeo.

A investigação acredita que a viagem foi uma tentativa de validar a versão de que Wickfield mora na Inglaterra, mas a Polícia Civil e a Promotoria já estão convencidas do contrário. O delegado responsável pelo caso chegou a enviar um ofício eletrônico a autoridades do Reino Unido, questionando se o juiz tinha passaporte inglês. A resposta, segundo a investigação, foi que não havia nenhum cidadão com aquele nome no país.

Evidências diferentes serviram para convencer os policiais e a Promotoria de que Reis e Wickfield são a mesma pessoa, a começar pela coincidência de impressões digitais —gêmeos univitelinos não têm a mesma biometria nas pontas dos dedos. Além disso, ele apresentava certidões de nascimento com o mesmo número de registro em cartório para sustentar as duas identidades. Uma delas, com os cinco sobrenomes em inglês, era a falsa.

Reis e Wickfield também compartilhavam o mesmo registro de endereço em São Paulo, apesar da alegação de que o magistrado morava no exterior. E embora a investigação tenha identificado que ele tem duas irmãs, ele afirmou que as desconhecia quando os nomes foram apresentados durante o depoimento. Quando Polícia Civil chamou um familiar de Reis para depor, ouviu uma versão diferente, que não incluía a história dos gêmeos.

Até esta sexta-feira (4), Reis ainda não havia constituído defesa no processo em que responde por falsidade ideológica e uso de documento falso. A denúncia já foi aceita, ou seja, ele já se tornou réu. A reportagem entrou em contato por e-mail e telefone com um advogado que representa o juiz aposentado em outro processo, sem relação com a denúncia, mas não recebeu resposta.

TELEFONE INFORMADO À POLÍCIA NÃO RECEBE CHAMADA

O contato de telefone atribuído a Wickfield, que consta no termo de depoimento de Reis à Polícia Civil, tem um dígito a menos do que o padrão de telefonia do país e não recebe chamadas. O código internacional informado é o +44, que de fato corresponde ao Reino Unido, e tem o 7 como primeiro numeral do prefixo —o que no país só é usado em números de aparelhos celulares.

Com um telefone habilitado para ligações internacionais, a Folha de S.Paulo tentou sem sucesso entrar em contato com o número informado. As chamadas não se completaram, e o número também não recebeu o envio de mensagens via SMS.

Para verificar o funcionamento do telefone, a reportagem conseguiu completar duas ligações a números de celular válidos do Reino Unido.