SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Donald Trump não é bobo nem nada, mas disso você já sabia. Hoje, esmiuçamos um pouco mais do que as tarifas podem fazer com o comércio global. Também aqui: o desgosto com os EUA na Ásia é tão grande que pode unir inimigos históricos, Eike Batista tenta lançar criptomoeda no Brasil e é barrado pela CVM, e indico um livro que ajuda a entender melhor o nosso país.
DA CABEÇA AOS PÉS
Alguns alvos das tarifas de importação aplicadas pelo presidente americano, Donald Trump, ficaram mais óbvios China, Canadá e México são exemplos. Contudo, você prestou atenção na tabela inteira levantada por ele na quarta-feira (3)?
No topo da lista dos mais atingidos ficaram Camboja (recebeu uma tarifa de 49%), Vietnã (46%), Sri Lanka (44%), Bangladesh (37%) e Tailândia (36%). Ainda que estes países sejam distantes do Brasil, é melhor que você se preocupe com esses encargos.
O argumento do republicano para impostos tão altos é que estas nações cobram muito das importações americanas, segundo uma pesquisa feita por órgãos do governo federal do país.
Basta colocar o tico e o teco para conversarem que logo aparecem outros motivos para uma taxação austera sobre o Sudeste Asiático. Vamos a eles.
De onde vem o seu tênis? Se você já se deu o trabalho de olhar onde seus calçados favoritos foram fabricados, pode ter encontrando uma etiqueta com os dizeres Made in Vietnam.
Itens de marcas como a Nike, a American Eagle, a Wayfair, a Deckers e a Hasbro são produzidos no país, que virou uma alternativa barata frente às guerras comerciais entre EUA e China.
As importações do Vietnã bateram os US$ 136,6 bilhões (R$ 769 bilhões) nos EUA em 2024, um aumento de cerca de 19% em relação ao ano anterior.
A título de comparação, as importações da China caíram 18% de 2022 a 2024.
Conflito de interesses. Se Trump quer uma indústria americana aquecida, faz sentido dificultar a vida de empresas dos EUA que investem em fábricas no exterior. Com encargos, ele explode os preços baixos, a principal vantagem de produzir tão longe.
Mais problemas. A Nike não anda tão bem das pernas. O encarecimento de uma parte da sua linha de produtos não deve ajudar em nada cerca de 25% dos seus calçados são produzidos no Vietnã.
Falamos um pouco sobre a crise da Nike em outra edição da newsletter, que você pode ler aqui. De lá para cá, a coisa não melhorou muito as projeções para os resultados do primeiro trimestre de 2025 decepcionaram investidores.
[+] Tocando no assunto, as ações da empresa de itens esportivos terminaram o pregão de ontem em queda de 14% na bolsa de valores de Nova York.
Não foi uma exclusividade da Nike. As tarifas trumpianas colocaram quase todas as bolsas globais em um dia de quedas. O dólar fechou no menor patamar desde outubro, custando R$ 5,629.
AMINIMIGOS CN, JP E KR
Imagine que você odeia seus vizinhos, muito mesmo.De repente, um terceiro elemento interfere nas questões do bairro, deixando a convivência que era difícil, pior. Ele é tão insuportável que faz vocês se juntarem contra o novo adversário.
É mais ou menos o que acontece com China, Japão e Coreia do Sul, inimigos milenares que organizam a criação de um acordo de livre comércio na tentativa de atenuar os efeitos do tarifaço imposto por Donald Trump.
📜 Briga antiga. O histórico das relações entre os três países é de violência, animosidade e dominações.
Mas eles parecem dispostos a uma reconciliação, ou, ao menos, uma trégua. Em março, os ministros das relações exteriores dos três se encontraram pela primeira vez em quatro anos. Outros representantes se reuniram em Seul no último domingo (30).
🏃 Mudando a marcha. O trio de nações afirmou que está pronto para acelerar as negociações para um acordo trilateral de livre comércio e fortalecer sua cooperação para combater a ofensiva tarifária dos americanos.
A China tem mais pressa que os outros, uma vez que é o alvo preferencial de Trump e seus amigos além dos encargos, sofre outras restrições ao comércio com os EUA, como a proibição de comprar produtos de alta tecnologia deles.
As importações chinesas para os EUA serão taxadas em 34%;
As sul-coreanas em 26%;
As japonesas em 24%.
🚗 Sem bateria. Um dos setores mais impactados pelos impostos do republicano é o dos automóveis tanto os elétricos, quanto à combustão.
Hyundai, Honda, Toyota, Nissan, BYD e GWM são exemplos de marcas que vendem globalmente, mas nasceram na trinca de países. Suas vendas nos Estados Unidos podem estar ameaçadas.
Uma maior flexibilidade de comércio entre os vizinhos pode ajudar a baratear produtos fabricados por eles, o que os fortaleceria em outros mercados que não os EUA.
União faz a força. Juntos, querem pressionar a OMC (Organização Mundial do Comércio) por uma reforma da instituição que incluiria a adesão de novos membros à ampla Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), que agrupa a China e 14 países asiáticos.
CVM 1 x 0 EIKE BATISTA
Se há algum negócio que Eike Batista não toparia, esta newsletter desconhece. A mais nova empreitada do empresário é uma criptomoeda.
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que fiscaliza as operações do mercado no Brasil, proibiu a venda do token no mercado brasileiro.
O quê? A $EIKE é vendida por um US$ 1 (R$ 5,63) na plataforma Solana e tem como garantia as ações da BRXe, empresa dele destinada à produção de supercana.
↳ O empreendimento promete usar uma tecnologia de cruzamento genético de cana-de-açúcar que permitiria a produção de até três vezes mais etanol e 12 vezes mais bagaço por hectare.
↳ Nós detalhamos as pretensões de Batista no ramo dos combustíveis na edição do dia 26 de fevereiro, que você encontra aqui.
A venda da $EIKE servia como uma das formas de injetar dinheiro na companhia.
Mexe ou não mexe? O bloqueio da CVM se deve ao entendimento da Comissão de que o token é um valor mobiliário, ou seja, que pode ser negociado no mercado de capitais.
Ações, debêntures, cotas de fundos, derivativos e títulos públicos são exemplos de valores mobiliários.
Acontece que, para negociar esse tipo de bem no Brasil, você precisa da autorização do órgão de fiscalização. Um detalhe bobo esquecido por Batista.
Na verdade, não foi esquecido. A justificativa do milionário para não ter entrado com uma solicitação é que o produto não se destina à venda, distribuição ou comercialização no território brasileiro. O token ainda está em fase de pré-venda.
🎢 Ladeira abaixo. O empresário justifica suas investidas investe em setores pouco convencionais e justifica: sempre procuro a ruptura buscando brutal eficiência.
Ele chegou a ser o sétimo homem mais rico do mundo, antes de tudo começar a dar errado em 2010.
Condenado e preso por crimes contra o mercado de capitais, teve que vender o controle dos projetos que deram certo para pagar dívidas da petroleira OGX e do estaleiro OSX.
PARA LER
Extremos: Um mapa para entender as desigualdades no Brasil
Pedro Fernando Nery. Zahar. 368 páginas.
O que é necessário para entender o quão desigual é o Brasil? Talvez, andar de Norte a Sul, conhecendo as cidades mais ricas e as mais pobres.
É o que fez o economista Pedro Fernando Nery: foi do distrito paulistano de classe alta Pinheiros até a cidade de Ipixuna, no Amazonas, com o menor índice de desenvolvimento do país.
Enquanto relata os causos da viagem, ele costura temas econômicos em discussão na sociedade brasileira, como as reformas da previdência e tributária: a quem elas servem, como elas impactam diferentes camadas da sociedade e como foram pensadas.
Ainda, outros temas entram em pauta, como imigração, crescimento econômico, investimento na infância e educação, endividamento e tudo aquilo que pode impactar a vida financeira de um cidadão brasileiro.