BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O Brasil vai levar à cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) uma proposta para que os 33 países-membros da organização lancem uma candidatura unificada para que uma mulher da região ocupe o cargo de secretária-geral das Nações Unidas.
O atual líder da entidade, o português António Guterres, deixa o cargo em dezembro de 2026, e a ONU nunca foi dirigida por uma mulher.
Há um entendimento informal de que a secretaria-geral da ONU deve passar por uma rotatividade entre regiões, e a proposta brasileira busca fortalecer uma candidatura para fazer valer esse princípio. O último latino-americano no cargo foi o peruano Javier Perez de Cuéllar, de 1982 a 1991.
O Itamaraty reconhece, no entanto, que apesar de haver apoio amplo à proposta de uma candidatura única na região, as negociações ocorrem em um contexto em que há diferentes tratamentos à questão de gênero entre os países, o que pode terminar por retirar a recomendação de que o nome escolhido seja de uma mulher.
“O Brasil irá trabalhar [para isso], na nossa proposta existe um parágrafo. Não é obrigatório que seja uma mulher, mas nunca houve uma mulher secretária-geral, e nós temos candidatas de grande peso político, intelectual e liderança. Não haveria razão para não ser”, afirma a embaixadora Gisela Padovan, secretária do Itamaraty para América Latina e Caribe.
Não há um nome pré-determinado, mas algumas são apontadas como fortes para a indicação, como a primeira-ministra de Barbados, Mia Motley, e a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, que já esteve à frente do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.
“Agora, a gente tem que trabalhar no conjunto da Celac. Nós sabemos que há países que têm uma visão um pouco distinta de questões de gênero, então antecipamos que pode haver dificuldades com esse ponto específico. Claro que ficaríamos satisfeitos com a nossa proposta, que defende uma mulher”, afirma Padovan.
Sob Javier Milei, a Argentina é um dos países da região que tem feito oposição a questões de gênero em fóruns internacionais. Na última cúpula do G20, no Brasil, a delegação argentina se manteve contrária a menções sobre o tema –a declaração final, aprovada citando igualdade de gênero e combate a violência sexual, carregou indicações de objeção dos argentinos.
A proposta é uma declaração paralela levada pelo Brasil à Celac, que se soma a cerca de 16 outros textos específicos e à declaração geral da cúpula. As negociações ocorrem majoritariamente a partir do próximo domingo (6), quando os coordenadores dos debates se reúnem.
A cúpula da organização ocorre a partir deste fim de semana em Tegucigalpa, capital de Honduras. A reunião de chefes de Estado, da qual participa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), está prevista para a próxima quarta-feira (9). Antes disso, haverá reunião de chanceleres, na terça-feira (8), e os encontros de coordenadores das discussões sobre as declarações a serem assinadas.
Embora a cúpula ocorra em meio à imposição de tarifas por parte do governo de Donald Trump nos Estados Unidos, o Itamaraty afirma que o assunto será tratado, mas não será pauta prioritária das discussões da Celac, que já estão em andamento há semanas.
Segundo o ministério, o caráter particular das relações entre cada país com os EUA dificultaria uma posição unificada que avance além da defesa do multilateralismo e de regras justas para o comércio internacional.
A presidência de Honduras da Celac, que termina com a cúpula e passa o bastão para a Colômbia, havia convocado uma reunião de emergência da organização em janeiro, poucos dias após a posse de Trump, após controvérsia entre os EUA e a Colômbia com relação a voos de deportação iniciados logo na primeira semana do governo do republicano.