SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O pavilhão 3 do Riocentro patrocina nesta semana um raro e inusitado encontro: fabricantes de armas da Rússia e da Ucrânia quase lado a lado, separados por um minuto de caminhada.

Os pavilhões do local sediam, nesta semana, a maior feira militar da América Latina, a LAAD. Seus 404 expositores vendem de tudo, de latrinas de campanha da Alaska Defense americana a aviões de caça da Saab sueca, e como todo evento do tipo, reflete o espírito da geopolítica do momento.

Na edição anterior, em 2023, a Rússia esteve ausente devido à invasão da Ucrânia, ocorrida no ano anterior. Não houve propriamente um veto, mas os russos preferiram apostar num campo mais favorável, uma feira semelhante no Peru.

Em 2019, o país já havia reduzido sua presença em comparações a outras ocasiões, quando suas grandes maquetes de caças Sukhoi eram sucesso garantido para a turma dos selfies.

Agora, estão de volta na forma de um estande de tamanho mediano da estatal que concentra as exportações de armas, a Rosoboronexport. Sua delegação, que inclui fabricantes, militares e analistas, tem cerca de 25 pessoas, a maioria hospedada em Copacabana.

Perto dos pontos de rivais estratégicos como a Saab ou Airbus europeia, o local prima pela discrição. Há maquetes de caça e blindado, mas de tamanho reduzido. O trânsito, contudo, é bastante intenso, focado em clientes tradicionais da Rússia.

Só na quarta (2), houve longa reunião com uma delegação da Argélia, país que acaba de anunciar a compra do mais avançado caça russo, o Su-57 de quinta geração. Mas o que mais se via eram militares de países africanos, alvo contumaz da diplomacia da bala de Moscou.

A poucos passos dali, a Guerra da Ucrânia se fazia mais clara, com dois jovens estreando em um pequeno estande com equipamentos que visam inutilizar drones.

“Hoje, 80% das mortes no conflito são decorrentes de ataques de drones. As pessoas falam muito neles, mas esquecem que é preciso combatê-los também”, disse Oleksandr Tomachevskii, o gerente de exportação da Kvertus, a maior empresa ucraniana do setor.

Criada em 2017 com cerca de dez funcionários, ela hoje tem o triplo da força de trabalho. Hoje a empresa produz 5.000 equipamentos por mês, em 40 modelos diferentes. Há desde canhões eletromagnéticos para capturar drones no ar até antenas que embaralham seus sistemas de guiagem, afastando dos alvos.

“Nosso trabalho é vital, e temos a vantagem de que tudo o que vendemos é usado pelas Forças Armadas da Ucrânia”, diz. “Diversas forças policiais vieram conhecer nossos produtos. Aqui no Rio isso é um problema claro, os criminosos nas favelas têm acesso a drones cada vez mais facilmente”, disse.

Como é costumeiro nessas feiras, não houve nenhum negócio fechado. Ou anúncios são feitos após negociações extensivas anteriores, ou apresentações e trocas de cartões azeitam eventuais contatos futuros.

No caso russo, os principais clientes na região estão na Venezuela e no Peru. O Brasil só opera alguns lançadores de mísseis portáteis, e teve durante uma década uma esquadrilha de helicópteros de ataque Mi-35, já desativada.

Moscou tem usado, em maior escala, o mesmo argumento de Tomachevskii: praticamente todo seu portfólio convencional foi empregado contra o vizinho, e produtos puderam ser aprimorados ao longo da guerra.

Com isso, os russos tentam voltar ao posto de segundo maior vendedor de armas do mundo, que perdeu para a França no período de 2019 a 2023, segundo o Sipri (Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo). No intervalo, viu cair de 21% para 11% sua participação, em comparação com o quadriênio anterior.

Isso se explica tanto pelo temor de clientes de serem pegos em sanções secundárias quanto pelo aporte brutal em defesa feito internamente por Vladimir Putin, que elevou o gasto militar a cerca de 6% do PIB e um terço do orçamento de investimento do governo.

Os maiores exportadores do mundo, os EUA, estão subrepresentados na LAAD, enquanto os ascendentes Emirados Árabes Unidos e Turquia chamam a atenção novamente por seus estandes enormes e anúncios de parcerias com empresas locais e de compra de controle.