SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Jorge Preá ficou conhecido por sua velocidade dentro de campo, mas foi nas ruas da Casa Verde, bairro onde nasceu e cresceu em São Paulo, que ganhou o apelido que o acompanharia para sempre.
“Meu padrinho de casamento, que era meu vizinho na infância, colocou Preá porque eu corria muito. Corria da minha mãe, na rua, no futebol. No começo, eu não gostava, e aí pegou mesmo”, contou à reportagem.
A CAMINHADA TARDIA NO FUTEBOL
Diferente da maioria dos jogadores, Preá viu sua carreira profissional deslanchar apenas aos 23 anos, após anos tentando oportunidades em peneiras. “As coisas começaram a dar certo tarde. Fui para o Pelotas, no Rio Grande do Sul, após ser aprovado em uma peneira organizada pelo César Sampaio. Antes disso, jogava na várzea desde os 15 anos.”
No Pelotas, não demorou para se destacar. “No primeiro jogo, fiz três gols e não saí mais do time. Fui artilheiro da competição, mas não conseguimos o acesso.”
Ex-atacante com passagem marcante pelo Palmeiras, Jorge Preá nesta quinta-feira (3) leva uma rotina bem diferente dos tempos de jogador profissional. Torcedor do São Paulo desde a infância, ele trabalha como entregador no Mercadão da Lapa, na capital paulista.
Preá é entregador no açougue do seu Carlos, em dois boxes do Mercadão da Lapa, local tradicional da cidade, e diz que precisa do trabalho para poder sustentar sua família.
“Eu sou entregador, faço entrega para o açougue. Dois boxes, tem aqui do seu Carlos, o box Sanchez e Vitória. Boxes 20 e 18. Eu trabalho nos dois, faço entrega de carro nas ruas de São Paulo, em restaurantes, bares, casas, prédios. Já estou aqui há 5 anos, muito feliz, graças a Deus.”
Mesmo distante dos holofotes do futebol profissional, ele não se afastou completamente dos gramados. No projeto Chute Inicial, ligado ao Corinthians, transmite experiência e conhecimento às crianças que sonham em seguir a carreira no futebol.
A passagem pelo futebol profissional, que incluiu experiências em outros clubes brasileiros e internacionais, nesta quinta-feira (3) serve como bagagem para sua nova fase de vida.
A PASSAGEM PELO PALMEIRAS E LUXEMBURGO
A boa fase no Rio Grande do Sul rendeu um teste na Coreia do Sul, mas uma lesão no joelho fez com que Preá retornasse ao Brasil, onde acabou sendo contratado pelo Palmeiras.
“Tive um problema no joelho e voltei para tratar no Palmeiras. O Vanderlei Luxemburgo me reconheceu e pediu minha contratação.”
Com poucas chances no time, ele guarda boas lembranças do técnico:
Luxemburgo foi o melhor treinador com quem trabalhei. Me ensinou muito sobre postura, confiança e espírito de vencedor.
Pelo clube, disputou sete jogos e marcou um gol decisivo. “Foi contra a Portuguesa, aos 48 do segundo tempo, que garantiu a classificação antecipada para a semifinal do Paulistão de 2008. Torcedores ainda me falam sobre esse gol.”
O LADO OBSCURO DO FUTEBOL
Preá não esconde a decepção com os bastidores do futebol. “O futebol é muito sujo. nesta quinta-feira (3), o que conta é dinheiro e não talento. Empresários influenciam na escalação, e muitos jogadores talentosos acabam ficando para trás.”
Após passar por clubes como Athletico-PR, ABC, Cascavel e Sinop, Preá decidiu encerrar a carreira em 2019, depois de uma experiência frustrante no Real Ariquemes-RO.
“Fui mandado embora sem motivo e não me pagaram. Entrei na Justiça e, enquanto esperava, percebi que conseguia viver sem o futebol. Eu não tinha dinheiro e precisava pagar as contas em casa, então comecei a trabalhar”, diz.
“Arrumei um serviço na Prefeitura de São Paulo, limpando bueiros. Era o que tinha de mais fácil na época, sem burocracia – um amigo que já trabalhava lá me chamou, levei os documentos e comecei. Eu precisava garantir o sustento da minha família, não dava para viver só do status de ex-jogador de futebol. Já tinha cinco filhos para criar, precisava colocar comida na mesa, independente de onde o dinheiro viesse, desde que fosse de forma honesta. Fui junto com meu cunhado, o Washington, que é meu grande amigo, meu parceiro, meu compadre. Trabalhamos lá por seis meses. Ao mesmo tempo, eu também jogava na várzea, que me ajudava com um dinheiro extra.”
Seu maior salário no futebol foi no último ano de Palmeiras, quando ganhava R$ 35 mil. nesta quinta-feira (3), com as entregas, as aulas da escolinha e como treinador na várzea, Jorge Preá consegue fazer um ganho mensal entre R$ 4 mil a 5 mil.
Prefiro estar do jeito que estou, trabalhando e com a consciência tranquila. Passei por 14 clubes e saí de todos pela porta da frente.
Pelo menos o seu maior sonho ele conseguiu realizar. “Queria dar uma casa para minha mãe. Graças a Deus, consegui.”