RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Após um ano celebrado como sendo de virada para a sua divisão de defesa, a Embraer quer consolidar posições para seus dois principais produtos militares, o avião de transporte KC-390 Millennium e o caça leve A-29 Super Tucano.

“A estratégia é sermos um ator internacional”, diz o presidente da empresa, Bosco da Costa Junior. Em conversa com a reportagem no escritório da Embraer Defesa & Segurança na feira militar LAAD, no Rio, ele disse mirar todo o mundo, mas com um foco inicial muito forte na Europa —além de sua função originária, de atender a Força Aérea Brasileira.

Para tanto, foi aberta uma empresa da Embraer em Lisboa no fim de dezembro. “Não é só um escritório comercial, mas uma unidade com toda a security clearence para obter certificados de uma empresa que faz parte da comunidade da Otan, se envolver em projetos e discussões em Bruxelas”, diz.

Security clearence, ou autorização de segurança, implica o acesso a discussões reservadas que envolvem desígnios políticos e militares. No caso específico, no âmbito da Otan, a aliança militar ocidental, formada por 32 países e sediada na capital belga.

O continente está em meio a um acelerado processo de aumento de gasto militar, decorrente da incerteza da parceria com os Estados Unidos sob Donald Trump. A Otan deverá elevar usa meta de despesa entre os membros para mais de 3% do PIB, ante os 2% atuais, e diversas nações têm anunciado programas de rearmamento.

Em 2024, o KC-390 e sua variante sem capacidade de reabastecimento aéreo, o C-390, ampliaram sua posição na Europa. Na LAAD, a Suécia confirmou a compra de quatro aviões.

Ao todo, foram encomendados por clientes da aliança 21 aviões, fora os 4 pedidos pela Áustria, que é próxima do clube, e a aquisição de outros 5 aviões por Coreia do Sul e um país não revelado que o mercado crer ser o Uzbequistão, e os 19 do Brasil.

Em média, o KC-390 substitui uma plataforma tradicional, o americano C-130 Hércules, que voa desde os anos 1950. Portugal foi o primeiro parceiro da aliança a escolher o modelo brasileiro, fruto entre outras coisas da presença da Embraer no país, como controladora da empresa Ogma.

“O ano de 2024 foi de enorme crescimento de nossas receitas”, diz o executivo. O faturamento da divisão chegou a R$ 1,4 bilhão, 39% a mais que 2023. Na carteira de pedidos, defesa responde por um sexto dos US$ 26,3 bilhões em pedidos à empresa.

O interesse no KC-390 foi acompanhado pelo renovado sucesso de um antigo conhecido, o Super Tucano. Em 2024, o avião de ataque leve e treinamento foi vendido pela primeira vez para um país da Otan, Portugal. Com isso, a aeronave recebeu uma série de certificações novas para operar nos padrões da aliança, o que facilita sua venda para outros membros do bloco.

O turboélice fechou 2024 com 34 encomendas, recorde nas suas duas décadas de carreira. Após um serviço de frota de 600 mil horas de voo, das quais 60 mil foram em combate real, o avião mira os céus europeus e o temor dos países do continente da ameaça da Rússia de Vladimir Putin.

“Algumas nações estão avaliando o produto como um treinador avançado, migrando pilotos direto dele para aeronaves de caça de quarta, quinta geração”, afirma Costa Junior. “Isso pode abrir novas fronteiras em outras regiões, como o Indo-Pacífico.”

O aumento previsto da demanda por ora é absorvido pelas capacidades industriais da Embraer. A linha do KC-390 em Gavião Peixoto (SP), por exemplo, entregou três aviões ano passado e deve subir para cinco em 2025.

“Temos capacidade de expandir a produção até 18 aeronaves por ano, e chegaremos a 10 em 2030. A gente quer um produto global, ver expandidas as fronteiras para esses produtos. Devemos ter centros atendendo a demanda ao redor do mundo”, disse o presidente da empresa.

Há dois caminhos mais óbvios. O primeiro, europeu. Além da estrutura em Portugal, a Embraer Defesa fez um anúncio de criação de um centro de produção, inicialmente de peças, na Polônia.

O país do Leste Europeu é um dos mais belicistas da Otan, dada a proximidade com a Rússia, e tem apostado na diversificação de suas fontes militares: é um dos principais clientes da indústria de defesa da Coreia do Sul, por exemplo.

Outra via é a produção em dois países que já assinaram acordos de entendimento para a instalação de fábricas, a Arábia Saudita e a Índia. Costa Junior considera o caso indiano à parte, dadas as especificidades: o país está estudando comprar até 80 aviões de transporte da classe do KC-390 e exige a fabricação local.

Já os sauditas, cujo interesse especulado é em 33 aeronaves, serviriam mais como um centro para produção não só para Riad, mas para outros países.

Há, por óbvio, as incertezas da economia mundial. A guerra tarifária de Trump é “acompanhada atentamente” pela Embraer, diz o executivo, que disse ser muito cedo para fazer uma avaliação precisa do impacto das medidas no mercado.