RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Passados dois anos da surpreendente adesão da Finlândia à Otan, “tudo mudou” no setor de defesa do país, que se prepara para um aumento expressivo de forças de Vladimir Putin ao longo dos 1.340 km de fronteiras compartilhadas com a Rússia.

“A resposta oficial seria que nada mudou. Mas tudo mudou”, disse o general Markku Tapio Viitasaari, chefe da Unidade de Defesa Nacional do ministério do setor do país nórdico. Ele está no Rio como chefe da delegação finlandesa na bienal militar LAAD.

Ao conversar com a Folha de S.Paulo na noite de terça (1º) em um hotel carioca, esse oficial com carreira ligada ao setor de inteligência tinha um exemplo prático de sua tese. A Finlândia acabara de determinar a elevação do gasto militar de 2,4% do PIB parar 3%, além da saída do Tratado de Ottawa.

O acordo impede o empego de minas antipessoais e já havia sido descartado pela vizinhança: Estados Bálticos e Polônia deixaram o tratado no mês passado, de olho no reforço de suas fronteiras.

Viitasaari, 55, defendeu a decisão finlandesa. “Entrar no tratado foi uma decisão política, e o mesmo aconteceu agora. Trata-se de uma mensagem”, disse.

O destinatário trabalha no Kremlin, e a revogação da proibição visa dizer que Helsinque está disposta a usar todo seu arsenal. “Nunca houve minas na fronteira e elas, se forem compradas, ficarão em estoque. Elas tinham utilidade militar antes, e seguem tendo”, disse.

Ele discorreu sobre os desafios que vieram com a entrada da Finlândia na Otan, ocorrida um ano antes da de sua vizinha Suécia. É talvez a maior derrota estratégica de Putin, já que a invasão da Ucrânia visava afastar o risco de ter mais um Estado da aliança às suas portas: a adesão de Helsinque dobrou suas fronteiras com os rivais.

Do ponto de vista mais epidérmico, há os olhos grandes de Moscou sobre a região. “Do ponto de vista militar, faz sentido. Se eu fosse um comandante russo, faria o mesmo. É uma resposta direta”, disse, sobre a instalação de novas unidades fronteiriças.

“No momento eles estão lutando uma guerra, então não serão capazes de completar, equipar e treinar essas formações. Neste momento, não faz diferença para nós. Mas assim que as hostilidades na Ucrânia pararem, nós veremos um influxo de tropas russas”, disse ele, prevendo até três vezes mais militares do que antes da invasão de 2022.

Ele aponta impactos internos também. “Acho que a integração nunca irá parar”, afirmou. “Temos de aprender como influenciar decisões. Tudo mudou com a cultura de levar em conta o que os 32 países-membros têm a dizer.”

Além disso, Helsinque precisa fornecer oficiais para postos na estrutura do clube militar. “Mas nós reduzimos nossas forças em 2015, e achar um oficial adequado e capaz tem sido muito difícil”, disse ele. “E há o material que estamos doando de nossos estoques à Ucrânia”, afirmou. O país doou até o fim de 2024 o equivalente a 1,3% de seu PIB, sendo o quinto maior apoiador de Kiev nessa conta.

Na mão inversa, ele diz que a Otan está aprendendo a lidar com um novo teatro de operações, o gélido norte finlandês.

Ele compartilha das preocupações com a política de Donald Trump para a Europa, que trouxe os russos a uma mesa de negociações de cessar-fogo que Viitasaari “teme ser só uma cortina de fumaça” do Kremlin.

“Eles podem manter a guerra indefinidamente”, disse, ressalvando que ele considera a opção remota. O militar também citou a irritação da Dinamarca com o assédio de Trump pela aquisição da Groenlândia, de resto um território autônomo do aliado da Otan.

Ainda falando sobre os EUA, ele comentou sobre o temor generalizado acerca dos impactos do abandono de Trump da Europa. Em 2021, Helsinque encomendou 64 caças de quinta geração F-35 dos EUA para substitui sua frota de antigos F-18.

Agora, pululam boatos de que os EUA teriam um “botão da morte” que tornaria o avião inútil à distância, o que é fantasioso nesta forma, mas não como possibilidade de outro jeito. “Se houver algum soluções nas atualizações de software, o avião ficaria ineficaz, seria impossível tirar tudo que ele tem a dar.”

Esse temor e o desconforto com a sugestão do presidente americano de anexação fizeram o Canadá colocar em dúvida a continuidade de sua compra de 88 F-35. A Finlândia se arrependeu? “Ao contrário, foi uma decisão sábia, o avião é de longe o mais capaz do mundo”, disse.

“Não seria sábio de minha parte dizer que isso [a degradação] não possa acontecer. São possibilidades improváveis, mas é algo que você tem de admitir”, completou o militar, cujo departamento é responsável pelos programas com os EUA. O primeiro F-35 do país deve chegar no ano que vem.

Ele diz que nada sinaliza um rompimento contratual. Mas a Finlândia busca cumprir uma meta de diversificação de fornecedores estabelecida como política, e isso é o que a traz à LAAD, por exemplo: empresas do país estão adquirindo firmas brasileiras, particularmente na área do espaço.

Em relação à possibilidade de a Europa enviar uma força de paz à Ucrânia, ele diz que isso só pode ocorrer com o aval russo. França e Reino Unido têm liderado as conversas sobre isso, acerca das quais não há consenso europeu.

“Não se pode forçar isso”, disse, ressalvando que não considera que seria uma força da Otan porque o mandato da aliança é apenas em seu território. Logo, a defesa mútua exigida em caso de agressão não estaria na mesa —restando combinar com os russos, que rejeitam a ideia.

Em solo, ele vê “tempos sombrios” para Kiev. “Eles dependem totalmente da ajuda externa. Foram felizes em nichos, como nos drones para substituir a falta de artilharia, mas Putin mostrou estar disposto às baixas de uma guerra de atrito”, disse.