FOLHAPRESS – Na seleção do 30º Festival É Tudo Verdade, há um filme que tem gerado polêmica: “Sobre um Herói”, do dinamarquês Piotr Winiewicz. Seu roteiro, segundo informação dos próprios produtores, foi parcialmente produzido por inteligência artificial.
Na trama, um operário chamado Dorem Clery, da cidade de Getunkirchenburg, morre sem que haja uma explicação plausível. Acidente com a máquina? Mal súbito? Suicídio? Assassinato?
Quem viaja para investigar é Werner Herzog. O cineasta alemão? Não, uma instância algorítmica com sua voz e sua maneira de indagar as coisas, sob sua autorização.
O primeiro espanto representa um caminho sem volta. Abriram as portas para o desconhecido na tecnologia e a IA veio para ficar, substituindo, aos poucos, maneiras mais artesanais de confecção de diversas coisas, incluindo partes de um roteiro e por que não? direção de cinema.
O espanto é diminuído quando se nota que muitos filmes atuais já parecem uniformizados, seja por alguma plataforma de streaming, alguma exigência de festival ou algum outro nicho de consumo. Além disso, muitos já contaram com IA moderadamente em alguma etapa de sua produção. Talvez este marque um uso mais pronunciado, mas não é bem isso o que importa.
Ao buscar a uniformização do cinema, o estilo próprio, que faça a diferença, acaba sendo relegado ao segundo ou terceiro plano. Em textos jornalísticos ou acadêmicos, a IA é um fenômeno mais gritante, que pode se expandir para diversas áreas da criação artística.
O que faremos com isso, é de nossa responsabilidade. Sabendo da capacidade de destruição do ser humano, é bem capaz que iniciaremos uma espécie de hecatombe do imaginário. Por enquanto, a ética manda que se avise quando houver uso de IA em alguma etapa da produção. É o que “Sobre um Herói” faz. Será sempre assim?
O segundo espanto é mais diretamente relacionado aos meandros do filme. Werner Herzog, um dos maiores diretores de cinema em atividade, aparece em suas imagens? Na ficha técnica não constam o seu nome. Então, quem é ou o que é Werner Herzog? Um deep fake assustador.
Logo vemos que a IA, chamada, por sinal, de Kaspar, numa alusão a “O Enigma de Kaspar Hauser”, um dos filmes mais celebrados do diretor alemão, desenvolveu um roteiro a partir da voz e das obras de Herzog, com autorização dele e o aviso de que vai demorar muito 4.500 anos para um computador fazer um filme tão bom quanto os dele.
Com o decorrer do filme, vem uma certa esperança. Não a de que seja bom, mas de que vai demorar muito mesmo para um computador criar um filme digno de nota. Seria bom que o peso dessa evidência provocasse um obstáculo tão grande que qualquer tentativa seja abortada num futuro próximo.
Como a curiosidade humana é inacabável, para o bem e para o mal, o mais provável é que continuem brincando de demiurgos, ignorando que arte sem alma não existe.
Talvez não seja por acaso que em dado momento o filme entre numa discussão sobre a imutabilidade da alma em contraposição à previsibilidade do computador. O que se quer mesmo, salvo raras exceções, é o previsível, como apontam as listas de filmes mais vistos no streaming ou dos best-sellers em livrarias. Triste fim.
Mas temos ainda um terceiro espanto: a IA Kaspar só é capaz de fazer isso mesmo, um filme modorrento sem qualquer ideia cinematográfica mais inteligente? Não é pouco para a propagada ideia de substituição do esforço humano pela tecnologia? Os humanos que participam do roteiro não conseguiram melhorar o resultado?
Essa compreensão coloca o filme como uma das grandes picaretagens já feitas. O que, por si só, poderia o definir como interessante, na linha dos falsos documentários cujo “F for Fake” de Orson Welles é um dos mais ilustres representantes.
“Sobre um Herói”, contudo, pode ser considerado um documentário do uso de IA em partes do roteiro, como auxiliar. Mas essas partes se tornam ficcionais. Está muito mais para ficção disfarçada de documentário.
Há ainda o caminho da autocrítica, que reafirma a picaretagem. Foi-se o tempo em que um Jean-Luc Godard fazia suas autocríticas e nos levava a pensar. Este filme nos leva mais a lamentar que o próprio Herzog não esteja envolvido na direção e no roteiro.
A não ser que, ao perceber o fracasso, tenha tirado seu nome dos créditos e inventado essa história da IA. Seria uma reviravolta mais interessante que o próprio filme.
Beco sem saída? É o que parece. Mas talvez o maior fracasso artístico de “Sobre um Herói” seja menos o despertar do enfado do que ficar muito distante, na força do estilo, do que seria uma obra média de Werner Herzog, quando mais de seus melhores filmes.
SOBRE UM HERÓI
– Avaliação Ruim
– Onde É Tudo Verdade – em São Paulo, dia 4/4, às 20h30; dia 6/4, às 19h30, no Rio de Janeiro, dia 11/4; às 18h30
– Classificação 18 anos
– Produção Dinamarca, Alemanha, EUA, 2024
– Direção Piotr Winiewicz