BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Um estudo da Agência de Investigação Ambiental (EIA, em inglês) identificou 53 mil m³ de madeira do Pará, na amazônia, com indícios de ilegalidade em escala industrial vendida para países como Estados Unidos, França e Bélgica, além do próprio Brasil.
A quantidade de madeira extraída é equivalente a aproximadamente 2.000 contêineres e foi processada por 19 serrarias, negociada por 16 exportadoras e comprada por 30 diferentes empresas no exterior. Esse montante se refere ao período entre 2019 e 2024.
Ao final deste processo mais de 1.500 m³ foram exportados para nove diferentes países. Entre as espécies, estão ipê-roxo, ipê-amarelo, itaúba, cumaru, maçaranduba e angelim-pedra.
A Folha de S.Paulo procurou as principais empresas identificadas na investigação da EIA, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.
A reportagem também questionou o Ibama (Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis), a PF (Polícia Federal) e a Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará órgãos responsáveis pela fiscalização dessa cadeia, mas eles não se posicionaram.
A capital paraense, Belém, será a sede da COP30, a conferência sobre clima da ONU (Organização das Nações Unidas). O estado é um dos mais destruídos por crimes ambientais, como desmatamento, garimpo e grilagem de terra.
“[A investigação] com madeireiros por todo o Pará revela uma cultura de corrupção e fraude que mancha o setor, aumentando o risco para companhias que buscam madeira da região”, diz o relatório.
Das 19 serrarias identificadas no estudo, 12 já foram multadas pelo Ibama por crimes relacionados à madeira; das 16 exportadoras, 14.
O desmatamento explodiu durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). A derrubada de florestas representa para o Brasil a maior fonte de emissão de gás carbônico (cerca de 80% do total nacional), sendo também o maior vetor do aquecimento global do país.
O ex-ministro do meio ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles (hoje deputado pelo Novo de São Paulo), é investigado pelo Supremo Tribunal Federal por contrabando de madeira.
Desde de 2023, início do governo Lula (PT), o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama concentraram esforços no combate à destruição ilegal da floresta. Na Amazônia, o índice caiu drasticamente e, no último fevereiro, registrou o valor mais baixo de toda a série histórica para o mês (desde 2016), segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial).
Assim como o instituto, a investigação teve como uma de suas bases as imagens de satélite.
A EIA identificou áreas no Pará que servem para a extração de madeira, mas que, pelos registros fotográficos, não tinham nenhum ou quase nenhum sinal de atividade técnica parecida à utilizada pelo Ibama.
O relatório identificou, por exemplo, uma fazenda na cidade de Anapu (PA), com autorização para extrair pouco mais de 1.000 m³ de madeira quase 200 árvores, incluindo ipês-amarelos.
O plano de manejo da área incluía a construção de uma estrada principal e vicinais, além de um galpão para estocagem. Pelas imagens de satélite, no entanto, não há sinal de nada disso.
Outro indício de ilegalidade identificado pela investigação é que o plano de manejo alegava que a área tinha cerca de 4 m³ de ipê-amarelo por hectare, quando a presença desta espécie, segundo estudos, é de até 0,5 m³ por hectare.
Madeira extraída desta fazenda, inclusive ipês, foi vendida para empresas em Miami, nos Estados Unidos, e em Portugal.
Documentos de transporte e venda de madeira analisados pela investigação apontam ainda outra forma que os fazendeiros tentam driblar a lei.
Tanto nesse caso, como em uma outra fazenda situada em Uruará (PA), a quantidade de árvores derrubadas é praticamente idêntica à quantidade transportada. A autorização contemplava 1.226 m³, os registros falam em 1.225 m³ transportados.
A proximidade entre os números é implausível, aponta a investigação, porque a estimativa de extração é feita com as árvores em pé. Depois de derrubadas, o volume real costuma ser de 10% a 20% menor.
Neste caso, a madeira, que inclui ipê-roxo, foi parar, por exemplo, em Charleston, nos Estados Unidos.
No município de Placas, a EIA identificou que todo o trajeto do material aconteceu normalmente, a despeito de autuações do Ibama.
A investigação aponta uma fazenda que foi embargada pelo Ibama em 2019, o que deveria levar a secretaria de Meio Ambiente do Pará a barrar a comercialização de madeira extraída da área.
Mesmo assim, os registros consultados pela EIA mostram que pelo menos seis serrarias receberam matéria prima do local cinco das quais foram várias vezes multadas pelo Ibama posteriormente em outras situações.
Nem a origem em área embargada, nem as autuações por outros crimes, impediram que madeira da fazenda seguisse rodando o mercado pelo menos até 2024, passando por exportadoras brasileiras e depois vendida para Estados Unidos, Bélgica, França e Dinamarca.
Ainda neste caso, a EIA mostra que, ao invés de não explorar nada de sua área, a madeireira explorou um pouco, para tentar dar ar de legalidade à atividade.
Os registros apontam que foram transportados para fora do local de extração cerca de 23 mil m³ de madeira, quase a totalidade dos 24 mil m³ autorizados. O satélite, porém, mostra que menos de 15% da área da propriedade teve sinais de atividade humana.
O estudo conclui com uma série de recomendações às autoridades brasileiras e estrangeiras.
“[Há indicativo de] violações do Lacey Act dos Estados Unidos e dos requerimentos e proibições de importação da regulamentação madeireira da União Europeia” diz a EIA, em referência às respectivas legislações que deveriam impedir a importação de material ilegal.