SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Chegou o dia do tarifaço e o Brasil entrou na lista, Trump manda chefe do agro para visita em terras tropicais e outros destaques do mercado nesta quinta-feira (3).

**DESVIAMOS DA FLECHA?**

Todos os olhos estavam voltados para a Casa Branca enquanto Donald Trump listava as tarifas a serem impostas aos inimigos e aos amigos, “que muitas vezes são até piores no comércio”. Tudo o que queríamos saber estava em uma gigante tabela que o presidente ergueu durante o discurso.

Nela, constava o nome de países, a alíquota estimada de tarifas deles às importações americanas e uma sobretaxa linear a todas as importações daquele país pelos EUA. Um jeito um tanto inusitado de fazer um anúncio dessa proporção.

O Brasil, que temia taxas exageradas, até que saiu tranquilo: foi imposto um encargo de 10% sobre a compra de todos os produtos pelos americanos.

ILESOS?

Está longe (muito longe) de ser um imposto desprezível, uma vez que pode impactar o comércio brasileiro a nível global. Contudo, dava para ser pior.

– O Cambodja recebeu uma tarifa recíproca de 49%;

– A China, de 34%;

– A Suíça, de 31%;

– O Japão, de 24%;

– A União Europeia, de 20%.

Não ficou claro se as tarifas são cumulativas a outras já anunciadas, como aquelas sobre o aço e o alumínio. Segundo um funcionário da Casa Branca, não deve ser o caso.

No entanto, se ele estiver errado, as coisas começam a se complicar: a alíquota sobre as exportações do Brasil de aço e alumínio seria de 35%.

Alguns itens foram isentos da taxa geral: cobre, medicamentos, semicondutores, barras de ouro, energia e outros minerais que não estão disponíveis nos EUA. Bobos, não são.

Há no decreto um dispositivo que permite o republicano a aumentar as tarifas recém-anunciados caso os sócios comerciais retaliem os EUA. O Brasil aprovou nesta quarta-feira o PL da Reciprocidade no Legislativo, o qual explicamos na edição de ontem da newsletter.

E AGORA?

Trump justifica as medidas tarifárias dizendo que elas impedirão os países de explorar os americanos, o que, em sua opinião, eles vinham fazendo. A ideia é fortalecer a indústria doméstica ao encarecer os produtos vindos do exterior.

O tiro pode sair pela culatra, na opinião de economistas. A tendência é que as empresas demorem algum tempo (talvez anos) para se adaptar a uma nova cadeia de suprimentos –ou seja, os custos da produção vão subir e serão repassados aos consumidores.

**A ‘DAMA DE FERRO’ DO AGRO**

Ainda que haja um alívio inicial (justificado ou não?) com o impacto que as tarifas de Trump podem ter no Brasil, a saga aduaneira está longe do fim.

Prova disso é o fato de que a secretária do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), Brooke Rollings, tem planos de vir para cá em algum momento dos próximos seis meses. Sua função, conforme relatado por ela própria, é “responsabilizar os parceiros comerciais por sua parte nos acordos”.

VAZANDO DINHEIRO

Os EUA têm um déficit comercial grande na agricultura: gasta US$ 50 bilhões (R$ 284 bilhões) a mais do que vende em produtos desse setor. Segundo Rollings, o governo anterior tomou “pouca ou nenhuma ação” para resolver o pepino.

Em um relatório, ela referencia o Brasil diretamente, dizendo que os EUA “apresentam déficit de US$ 7 bilhões (R$ 39 bilhões) no comércio agrícola” e que seu departamento “segue comprometido em expandir o acesso a mercados em todo o mundo”.

MONTANDO O TABULEIRO

Rollins afirma que está colocando suas peças na mesa para negociar com mais mercados importantes para a produção rural americana.

Além daqui, ela deve viajar para a Índia, Japão, Peru, Reino Unido, Vietnã, Costa do Marfim, Hong Kong, México, República Dominicana e Taiwan.

PONTO SENSÍVEL

A relação entre os agronegócios do Brasil e dos EUA poderia virar assunto de terapia. Há muito o que elaborar.

A bancada ruralista brasileira não gostou nada das ameaças de impostos feitas pelo governo americano e já estava chateada com a União Europeia devido à lei antidesmatamento (que você pode entender melhor lendo esta reportagem).

Entre as principais produtos exportados estão o café (responde a 4,7% das nossas vendas para eles) e a carne.

TELEFONE SEM FIO

Algumas entidades brasileiras ficaram confusas quanto ao impacto do que foi anúnciado por Trump. Há produtos que já têm alíquotas maiores do os 10% divulgados.

A carne paga 26,4%. Há uma cota isenta, mas que acaba logo no início do ano.

A citricultura (cultivo de frutas como a laranja e o limão) tem uma tarifa fixa de US$ 415 (R$ 2.361) por tonelada de suco exportada e um percentual de 11%.

**RJ, A SANTA DAS CAUSAS IMPOSSÍVEIS**

A Polishop ficou conhecida dizendo para o público que para tudo há um jeito –até o que, aparentemente, não precisa ser resolvido. Será que também consegue uma solução para a falência?

PEDIDO DE SOCORRO

A transição das vendas na televisão para o e-commerce complicou a vida da empresa, que teve dificuldades em crescer desde 2015. A pandemia piorou tudo, com o varejo nacional entrando em crise. Dali para frente, foi só para trás.

A Polishop chega em 2024 aos trancos e barrancos, devendo cerca de R$ 352 milhões. A companhia já teve 280 lojas físicas, que viraram 58 –17 delas em risco de despejo.

Em maio de 2024, pede recuperação judicial (RJ). Uma parte da efetividade desse processo havia sido aprovada pela Justiça um mês antes.

Os paramédicos colocaram a empresa na ambulância: a ação protegeu-a contra ordens de despejo das lojas físicas, bloqueio de ativos financeiros e a retirada do ecommerce do ar. Sem esses aparelhos, o paciente pararia de respirar.

DÁ PRA RECUPERAR?

Há um princípio muito importante para que uma empresa entre em RJ: que ela consiga se restabelecer com seus próprios recursos, uma vez aliviadas as condições que a pressionam.

Quando uma companhia entra nesse tipo de processo, precisa apresentar um plano para a Justiça e os credores de como seria possível arcar com suas dívidas –geralmente envolve uma redução, um adiamento do prazo de pagamento, etc.

MAIS ALGUMA COISA?

O plano da Polishop chocou os financiadores: ela quer um desconto de 90% nas dívidas e uma carência de 20 meses para o pagamento ao longo de dez anos. Indignados, os bancos envolvidos protestaram formalmente contra a proposta.

– Para o Banco Safra, ela é “aviltante, abusiva e ilegal”;

– O Banco do Brasil diz que ela revela a incapacidade da Polishop em se reerguer pelas próprias forças e que o seu envolvimento significa a imposição de um “sacrifício excessivo e injusto”;

– O abatimento de 90%] é uma tentativa de anular o direito de credor em receber por seu crédito, ultrapassando qualquer limite suportável”, na opinião do Bradesco;

– O Pine chamou a medida de “vergonhosa” e “disparatada”.

A companhia responde dizendo que a falência seria pior para todos, uma vez que pode preservar empregos e dar aos credores (algum) retorno financeiro. Se o plano não for aprovado, a Justiça pode decretar a insolvência da Polishop.

**SEM MEDO DE SER FELIZ**

Talvez você role seu feed do TikTok todos os dias sem se lembrar de que o app está em risco de extinção nos Estados Unidos. Parece notícia velha, não?

Pois bem, a plataforma continua no ar até sexta-feira, e sua existência posterior depende da compra por uma empresa americana.

A Amazon entrou na jogada de supetão e fez uma oferta para adquirir toda a rede social, segundo três pessoas familiarizadas com o negócio.

RETOMANDO

O TikTok quase foi banido nos EUA em janeiro. Na verdade, chegou a ficar algumas horas fora do ar. Os americanos determinaram que, para funcionar por lá, o aplicativo teria de ser comprado por uma companhia local.

A gestão Joe Biden, antecessor de Trump, via riscos de espionagem da chinesa ByteDance sobre usuários, e portanto, a rede social não seria segura o suficiente para operar no país.

Ela tinha até o dia 19 de janeiro, um domingo, para arrumar um comprador. Não deu certo e o acordo quase foi para o ralo. Aos 45 minutos do segundo tempo, o recém-empossado Donald Trump assinou uma ordem para adiar por 75 dias a proibição.

TIC TAC

O tempo passou e cá estamos, quase no bater dos sinos mais uma vez. O prazo se esgota em 5 de abril, ainda nesta semana. E, assim como você, o aplicativo também gosta de deixar para resolver tudo na última hora.

A lei foi unanimemente aprovada pela Suprema Corte dos EUA, ou seja, não tem volta: vão ter que cumprir.

PALHAÇADA (?)

Diversas partes envolvidas nas negociações não parecem estar levando a sério a oferta da Amazon. A proposta foi feita por meio de uma carta endereçada ao vice-presidente americano, JD Vance, e a Howard Lutnick, o secretário de comércio.

Até o momento, nem a Amazon, nem o TikTok responderam imediatamente a um pedido de comentário.

O negócio, no entanto, faria sentido. A rede de vídeos tem 170 milhões de usuários nos Estados Unidos e boa parte deles faz compras a partir do que vêem ser divulgados por outros –e, claro, acabam usando o e-commerce fundado por Jeff Bezos para tal.

**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**

A saga continua. Depois do anúncio de venda para o BRB, o banco Master diminuiu a taxa dos CDBs –todos os rendimentos pré-fixados caíram três pontos percentuais.

Enfiar a cabeça na areia”…é como Armínio Fraga, ex-presidente do BC, descreve a estratégia de emitir mais títulos de dívida pública.

O pão volta a adoçar. Depois da mudança pedida por acionistas no conselho, os papéis do GPA subiram 20% no pregão de ontem.