SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um grupo pró-Israel nos Estados Unidos tem enviado ao governo de Donald Trump dossiês com informações de manifestantes que defendem a causa Palestina como parte de esforços para que sejam deportados, de acordo com o site da CNN americana. Nos últimos dias, vários alunos estrangeiros que estiveram nos atos foram detidos, o que tem gerado temor entre a comunidade internacional universitária.

A organização Betar US, cujo lema é “Os judeus revidam”, tem compilado dados de ativistas que incitam a violência e o ódio contra judeus, segundo um ex-integrante do grupo ouvido pela reportagem. A iniciativa, porém, é criticada por representantes acadêmicos, que apontam assédio e campanha de desinformação.

O grupo reúne e direciona o material às autoridades. Ainda segundo a CNN, não se sabe se o governo Trump tem usado os dados em suas operações de buscas a supostos líderes de protestos pró-Palestina.

Sediada em Nova York, a Betar afirma contribuir com um decreto assinado por Trump em janeiro para “combater o antissemitismo”, no qual exige que departamentos como o de Segurança Interna e o de Justiça encontrem maneiras de deportar ativistas pró-Palestina, incluindo estudantes universitários.

Autoridades mencionam o decreto para justificar uma série de detenções que ocorreram nos últimos dias, em operações criticadas e que têm provocado pânico inclusive entre brasileiros. No começo de março, agentes detiveram o estudante palestino Mahmoud Khalil, da Universidade Columbia. Semanas depois, foi a vez do indiano Badar Khan Suri, da Universidade Georgetown.

Já na semana passada, agentes prenderam a estudante de doutorado turca Rumeysa Ozturk. Uma câmera captou o momento em que ela foi abordada por seis agentes à paisana e levada para dentro de um carro. Os motivos da ação continuam nebulosos, mas os colegas da aluna dizem que podem ter relação com um artigo escrito por ela para o jornal estudantil sobre o conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza.

Na última quinta-feira (27), sem entrar em detalhes, o secretário de Estado, Marco Rubio, ainda anunciou o cancelamento dos vistos de aproximadamente 300 manifestantes, os quais chamou de lunáticos.

Além de enviar dados ao governo Trump, o grupo Betar tem publicado na internet nomes, fotos e outras informações de manifestantes estrangeiros que teriam “manifestado apoio ao Hamas”. Outras organizações, caso da Canary Mission, adotam táticas semelhantes.

Essa estratégia, porém, é alvo de críticas e questionamentos. Uma estudante que teve seu perfil traçado, segundo a CNN, diz que a descrição foi feita de forma imprecisa. Ela contou sofrer ameaças de morte após a publicação e diz ter desenvolvido um quadro de ansiedade e depressão.

Segundo o ex-integrante da Betar, o grupo usa tecnologia de reconhecimento facial e informações de código aberto, caso de postagens em redes sociais, para identificar os manifestantes.

As organizações então reúnem uma série de dados, que incluem publicações nas redes, fotos, históricos escolares e até mesmo endereços residenciais para montar o dossiê do ativista.

“Enviamos os nomes de centenas de manifestantes e ativistas ao governo Trump, pedindo ao ICE [Serviço de Imigração e Controle de Alfândega] que os deporte de acordo com os decretos”, disse à CNN Daniel Levy, porta-voz da Betar, em março.

Questionado sobre o assunto, um porta-voz da Casa Branca se limitou a dizer que o Departamento de Segurança Interna usa setores da inteligência para identificar manifestantes estrangeiros que, segundo ele, poderiam ter se envolvido em delitos passíveis de deportação. Ele não entrou em detalhes.