SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As tarifas impostas pelo governo Donald Trump a produtos brasileiros devem ter um impacto baixo sobre aeronaves fabricadas pela Embraer, cuja frota de jatos é uma das maiores em operação nos Estados Unidos.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, a tendência é que as empresas importadoras de aviões da Embraer acabem absorvendo a alta de 10% para os segmentos de aeronaves em que concorrentes americanas, como a Airbus, não operem com tanta força.

Nesse caso, a Embraer se beneficia diretamente da fabricação dos modelos E1, jatos de médio porte, com até 70 assentos, utilizados pela aviação comercial em todo o mundo. No mercado norte-americano, o Embraer 175 é um dos que domina o segmento.

Até o 4° trimestre do ano passado, as empresas aéreas dos EUA foram responsáveis por comprar um total de 723 aeronaves comerciais da Embraer, sendo 95% deles do modelo E175.

No balanço, a Embraer apontava a Skywest como sua maior compradora na região naquele período, cujo somatório de pedidos e entregas chegou a 204 aeronaves. A American Airlines vem em seguida, com 204 aeronaves, sendo boa parte delas (92) para serem entregues nos próximos meses.

A Republic Airlines e a Mesa Airlines são exemplos de companhias que operam somente com a Embraer nos Estados Unidos. No caso da Mesa, uma subsidiária da United Airlines, os modelos 175-E1 foram anunciados no 1° trimestre deste ano como as únicas aeronaves da frota e são utilizados na marca regional de sua controladora, a United Express.

É justamente no mercado regional que a Embraer consegue operar com força, beneficiada diretamente por subsidiárias de grandes empresas, como a American Airlines, Delta e United.

“Vender menos para os EUA não vai gerar demanda adicional no restante do mundo. Podem acontecer cancelamentos de pedidos dos EUA, e o prazo de entrega pode diminuir um pouco, estimulando vendas [em outras localidades], mas isso é efeito de segunda ordem, não será significativo”, afirma Adalberto Febeliano, especialista em aviação civil.

O economista do IDP (Instituto de Ensino Desenvolvimento e Pesquisa) José Roberto Afonso também concorda que o efeito será, invariavelmente, maior para as empresas importadoras, que serão obrigadas a aumentar o custo de investimento para manter a operação.

Professor da Poli-USP, Jorge Eduardo Leal Medeiros lembra que a chamada “scope clause”, cláusula aprovada recentemente na Convenção Coletiva dos Pilotos nos EUA, beneficiou a Embraer. O mecanismo limita a quantidade de aeronaves com mais de 70 assentos operadas por empresas terceirizadas.

“Não existe avião desse tamanho no mercado. A Embraer deu uma sorte imensa com a scope clause, o E1 é um avião feito para o mercado americano. Ou eles vão importar menos, o que acho difícil, ou vai aumentar o valor da passagem. Podem até diluir de outra forma”, afirma Medeiros.

Por outro lado, ainda é incerto a extensão de uma possível retaliação do governo brasileiro ante a aplicação dos 10% anunciado por Trump. O tema está em debate no Congresso Nacional.

“O Brasil precisa ser inteligente. Nesse caso, por exemplo, me parece que algumas partes do avião da Embraer são importados dos EUA, como provavelmente é o caso dos motores, turbinas. Se o Brasil retaliar e aplicar tarifa sobre tais partes das aeronaves, estaria onerando a fabricação nacional”, disse Afonso.

Existem outros nichos do mercado da aviação que podem ser atingidos com a possível retaliação brasileira. É o caso das importações de aeronaves da Airbus, atualmente utilizados pela Gol, que sofreriam reajustes e poderiam atingir a operação da companhia aérea, que está em recuperação judicial nos Estados Unidos.

“O que me preocupa é que tipo de retaliação vai vir. Eu taxaria Boeing em 10% também, mas acho que o governo quer apostar na negociação para acabar com essa taxa aplicada hoje. Se tiver retaliação pode ser mais complicado. Boeing tem avião encomendado pela Gol, por exemplo, e isso pode complicar a situação da companhia”, disse Febeliano.

Em relatório divulgado no final do mês passado, o BTG reportou que a aviação executiva norte-americana é onde a Embraer tem seu maior mercado para o segmento, cuja demanda é forte entre os modelos Phenom e Praetor –vendidos para frotas corporativas, proprietários privados e empresas de táxi aéreo.

Nesse caso, as francesas Airbus e Dassault e a canadense Bombardier são as principais concorrentes e devem sofrer com a taxação em 20% e 25% aplicada pelos EUA a União Europeia e ao Canadá, respectivamente.

Também pesa a favor da Embraer o fato de que nem todas as aeronaves executivas são montadas 100% na fábrica de São José dos Campos (SP), como é o caso dos modelos Phenom e Praetor, onde operam contratos com demandas diferenciadas.