SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Pelo segundo dia seguido, a China simulou um cerco a Taiwan —desta vez, usando munição real, segundo Pequim, embora Taipé afirme não ter identificado qualquer tiro nas proximidades da ilha.

O Comando do Leste da China disse nesta quarta-feira (2) que, como parte do exercício batizado de Strait Thunder-2025A, suas forças terrestres realizaram manobras de tiro real de longo alcance nas águas do mar do Leste da China, sem dar uma localização exata.

“Os exercícios envolvem ataques de precisão em alvos simulados de portos-chave e instalações de energia, e alcançaram os efeitos desejados”, anunciou a unidade. Segundo o Ministério de Defesa de Taiwan, 36 aeronaves militares chinesas foram detectadas, contra 76 do dia anterior. A pasta, porém, afirmou não ter registrado nenhum tiro real ao redor da ilha.

Na noite de terça-feira (1º), a Administração de Segurança Marítima da China anunciou que uma área ao norte da província de Zhejiang, a mais de 500 quilômetros de Taiwan, permaneceria fechada até quinta-feira (3) à noite devido a exercícios militares —região fora da zona de resposta da ilha, segundo afirmou à agência de notícias Reuters um funcionário de alto escalão do setor de defesa taiwanês.

Seja como for, a mobilização se junta a outras hostilidades dos últimos dias entre Taipé e Pequim. Na terça, o Exército da China já havia enviado dezenas de aviões e navios de guerra para o entorno da ilha —provavelmente uma retaliação à visita do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, à Ásia, onde repetidamente criticou Pequim.

Semanas antes, o presidente taiwanês, Lai Ching-te, havia chamado a China de “força estrangeira hostil” —também na terça, o político foi retratado como um verme em uma publicação nas redes sociais do Comando do Leste de Pequim.

O Global Times, propriedade do jornal Diário do Povo, do Partido Comunista Chinês, disse que as ações contaram com equipamentos avançados, indicando o uso de mísseis balísticos YJ-21, usados contra navios, e aviões H-6K, que podem ser capazes de transportar armas nucleares.

Assim como os exercícios da véspera, os desta quarta causaram reações da comunidade internacional. Os EUA, mais importante apoiador internacional de Taiwan e principal fornecedor de armas da ilha, criticaram as ações.

“Novamente, as atividades militares agressivas e a retórica da China em relação a Taiwan só servem para exacerbar as tensões e colocar em risco a segurança da região e a prosperidade do mundo”, disse o Departamento de Estado americano em um comunicado.

Japão e União Europeia também expressaram preocupação. “A União Europeia tem um interesse direto na preservação do status quo no Estreito de Taiwan. Nós nos opomos a quaisquer ações unilaterais que mudem o status quo pela força ou coerção”, disse um porta-voz do bloco europeu.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, respondeu afirmando que Taiwan é um assunto interno e, portanto, é “firmemente contra” tais comentários.

O Comando do Leste da China também continuou inundando seu perfil no Weibo, espécie de versão chinesa da rede social X, com vídeos provocativos. Um deles mostrava em uma animação explosões sobre cidades taiwanesas, incluindo Tainan, Hualien e Taichung —todas com bases militares e portos.

Diferentemente dos exercícios de terça, porém, os desta quarta faziam parte da operação Strait Thunder-2025A. Deixar de batizar as manobras anteriores foi visto como uma forma de Pequim mostrar que ações do tipo se tornariam comuns.

“Não importa qual seja o nome, não se pode encobrir a natureza provocativa dos exercícios e sua mentalidade de ameaçar o povo de Taiwan”, disse o porta-voz do Ministério da Defesa de Taiwan, Sun Li-fang, a jornalistas em Taipei.

A disputa entre Pequim e Taipé remonta a 1949, quando as tropas nacionalistas de Chiang Kai-shek perderam a guerra civil para os comunistas liderados por Mao Tse-Tung e fugiram para Taiwan. Até hoje, para Pequim, a China continental e Taiwan são duas partes de uma só China —questão considerada uma linha vermelha para o país comunista.