SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em alta de 0,24% nesta quarta-feira (2), cotado a R$ 5,696, minutos antes do anúncio do tarifaço do presidente Donald Trump.
O republicano anunciou tarifas recíprocas aos parceiros comerciais dos Estados Unidos às 17h (horário de Brasília) desta tarde, no que foi apelidado por ele como o “dia da libertação”. A medida espelha, em partes, as taxas praticadas sobre os produtos norte-americanos, em uma tentativa de equilibrar o déficit comercial do país.
A repercussão no mercado financeiro será sentida na sessão de quinta-feira. Diante do elevado grau de incerteza, os operadores optaram por decisões de investimento cautelosas -o que se refletiu na Bolsa brasileira. O Ibovespa fechou em estabilidade e marcou leve variação positiva de 0,03%, a 131.190 pontos.
O anúncio das novas taxas comerciais dos Estados Unidos tem pautado os mercados globais desde o início do ano. Poucos detalhes foram fornecidos até o fechamento deste pregão. Na semana passada, a expectativa majoritária era de que o tarifaço fosse direcionado aos países com maior superávit comercial para com os EUA -“os 15 sujos”, como apelidado pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent.
Mas, no domingo, Trump disse que as tarifas incidiriam sobre “todos os parceiros comerciais” do país e que, depois, iria “ver o que acontece”. Ao ser questionado sobre quais seriam os mais afetados, ele disse que não sabia se serão “15 países, 10 ou 15” e garantiu que “não há um limite”.
O principal receio em relação ao tarifaço é que ele aumente a inflação em uma ampla gama de produtos e distorça cadeias de suprimentos globais, especialmente se os países afetados revidarem com mais impostos.
Os efeitos ainda podem se estender para a atividade econômica dos Estados Unidos, que já tem dado sinais de desaceleração. A falta de clareza sobre o potencial inflacionário do tarifaço pode forçar o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) a manter os juros em níveis elevados para conter a alta de preços, o que pode resfriar ainda mais a atividade econômica.
O cenário desenhado por especialistas é de uma “estagflação”, isto é, quando a inflação está elevada e a economia não cresce.
“Não me lembro de uma situação em que os riscos fossem tão altos e, ainda assim, o resultado fosse tão imprevisível”, disse Steve Sosnick, estrategista-chefe da Interactive Brokers. “O diabo vai estar nos detalhes e ninguém sabe os detalhes.”
Até o momento, após uma série de ameaças e recuos, Trump já implementou uma tarifa de 20% sobre produtos chineses, taxas de 25% sobre importações de aço e alumínio e tarifas de 25% sobre mercadorias de México e Canadá que violem as regras de um acordo comercial da América do Norte. Em 3 de abril, entrarão em vigor as tarifas sobre os automóveis importados.
“O que sabemos é que os Estados Unidos vão intensificar suas barreiras comerciais, ou seja, vão aumentar de forma significativa e prolongada os impostos de importação sobre outras economias para reequilibrar a balança comercial e, ao mesmo tempo, dificultar o comércio internacional”, diz Leonel Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX.
“Não sabemos se as tarifas serão só sobre países ou também sobre setores, não sabemos quem será afetado, não sabemos os valores das tarifas, não sabemos se a abordagem será direcionada ou ampla, não sabemos se outros países irão retaliar. Muitas incertezas levam o mercado a ativos de segurança, como ouro, iene japonês, franco suíço e títulos de renda fixa.”
Os contratos futuros de ouro renovaram a máxima histórica na segunda, cotados acima dos US$ 3.150 por onça-troy. Ao mesmo tempo, índices acionários de Wall Street e da Europa têm registrado baixas firmes.
Os ativos brasileiros, por outro lado, tiveram sessões de valorização nos últimos dias. Mattos explica que há um movimento de “rotação” para fora dos Estados Unidos, no qual o objetivo é reduzir a exposição aos ativos de lá e, assim, diminuir os riscos.
“É muito difícil fazer qualquer previsão sobre o mercado hoje por causa da volatilidade. Mas, dado que o anúncio só irá ocorrer após às 17h, é possível que o dólar no Brasil oscile entre margens estreitas enquanto os investidores aguardam para definir posições.”
Em meio à espera por Trump, dados dos EUA também estavam no radar. A criação de vagas de trabalho no setor privado acelerou em março, mostrou relatório da ADP. Foram abertos 155 mil empregos no mês passado, depois de 84 mil em fevereiro. Economistas em pesquisa da Reuters previam 115 mil vagas.
O destaque fica para sexta-feira, com a divulgação do “payroll” (folha de pagamento, em inglês).