FOLHAPRESS – A produção de “A Hora dos Ruminantes” é um desses mitos sombrios do cinema brasileiro. É um projeto jamais filmado mas um que, mais de uma vez, quase foi filmado. A primeira tentativa foi feita por Luiz Sergio Person, o nome central do documentário “Os Ruminantes”, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello.
Jean-Claude Bernardet adaptou o livro de José J. Veiga e escreveu o roteiro com Person. Mario Civelli, que nos anos 1950 fundara a Multifilmes, seria o produtor. O negativo em cores já havia sido comprado e as locações encontradas no interior de São Paulo.
A partir daí a história toma um rumo estranho, e relatos derivados de torturas no DOI-Codi dão conta de que o negativo teria sido vendido a um grupo guerrilheiro clandestino, pago com dinheiro de assaltos, e finalmente usado por Rogério Sganzerla para filmar “Copacabana Mon Amour”, em 1970. Quem confia em relatos obtidos mediante tortura? Mas o mito passa por aí.
Person ainda tentou levantar a produção nos Estados Unidos, sem êxito e, segundo documentos, sofrendo a interferência de oficiais do Exército brasileiro junto a burocratas americanos. Os militares estariam revoltados não com os “Os Ruminantes”, mas com Person, diretamente, pois “O Caso dos Irmãos Naves”, de 1967, relatava um caso de erro judiciário em que a prática de tortura era mais que explícita.
O caso era do tempo da ditadura Vargas, mas que importa? É claro que o filme remetia à ditadura instalada em 1964.
“A Hora dos Ruminantes” não tratava de violência física, como bem acentua Bernardet: era um clima de opressão que se criava com a chegada de estranhos a uma pequena cidade, com acontecimentos estranhos que passavam a assolar o lugar. Até 1968, o filme passaria pela censura. Depois do AI-5, nem pensar.
Em parte pela decepção com o fracasso do projeto, em parte pela situação política da época, a carreira de Person sofreu desvios nem sempre felizes: Ele fez a comédia intragável “Panca de Valente”, um episódio da interessante “Trilogia do Terror”, emplacou com sucesso outra comédia, “Cassy Jones, o Magnífico Sedutor”, antes de se dedicar à produção teatral. Morreu em um acidente automobilístico em 1974, aos 39 anos.
“Os Ruminantes” passa ainda pela ruinosa tentativa de José de Anchieta, no final dos anos 1970. Anchieta chegou a filmar sua adaptação do livro, mas uma tromba dágua na cidade em que aconteceram as filmagens arrasou o galpão onde estava montada a cenografia e a produção foi suspensa.
Anchieta conseguiu salvar ao menos um copião, mas nunca levantou dinheiro para finalizar sua obra. Conforme seu filho, o cineasta que morreu em 2019 levava sempre aqueles copiões consigo. Hoje se encontram em estado deplorável.
O mais importante talvez seja a maneira como a malograda produção afeta a carreira de Person e revela os problemas da produção cultural no Brasil. Marina, sua filha, lembra ter recebido o conselho de Carlos Reichenbach, ex-aluno de Person: “Faça o que quiser de sua vida, mas nunca pense em filmar A Hora dos Ruminantes. É um filme maldito.”
Pelo sim, pelo não, um terceiro cineasta que manifestou o desejo de adaptar o livro para um jornal, Silvio Back, tirou o corpo fora: um problema cardíaco de Civelli e a inundação que arrasou a produção de Anchieta eram, em todo caso, um mau presságio.
Fica a questão levantada por Bernardet no documentário. Person era um cineasta com graves divergências em relação ao cinema novo, e por isso combatido por ele. Queria fazer um cinema capaz de divertir o público, mas com valores culturais. Entendia seu projeto como de esquerda, mas diferente do de Glauber Rocha.
Hoje, tais divergências parecem mais da ordem da superstição, mas não na época. Bernardet também expôs suas reservas em relação ao cinema novo e acreditava em um projeto cinematográfico voltado à classe média.
Após o fracasso de “A Hora dos Ruminantes”, pouco se viu nas telas algo de Person que lembrasse a força de “São Paulo Sociedade Anônima”.
Assim, o que o filme traz não é apenas a história de um projeto não realizado, mas de tudo o que o envolve: da capacidade das ditaduras de violentar a cultura, à frustração e ao desaparecimento precoce de Luiz Sergio Person.
Fala de um momento particular da produção audiovisual no país, mas, sobretudo, das imensas dificuldades que cercam o trabalho dos cineastas em um país como o nosso: por excesso de censura, falta de dinheiro ou indiferença dos espectadores em relação ao que se produz por aqui.
OS RUMINANTES
– Avaliação Muito bom
– Quando Em São Paulo, sex.(4) às 19h30, na Cinemateca Brasileira, e sáb. (12) às 16h, no IMS Paulista; No Rio de Janeiro, sáb. (5), às 18h30, na Estação NET Botafogo, e dom. (6), às 16h, no Estação NET Rio
– Preço Grátis
– Classificação 16 anos
– Produção Brasil, 2025
– Direção Tarsila Araújo, Marcelo Cordeiro de Mello
– Link: https://etudoverdade.com.br/