SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Na semana do Natal de 2024, moradores do entorno do córrego Tiquatira tiveram casas invadidas pela lama e observaram carros flutuarem na água barrenta que encobriu a avenida governador Carvalho Pinto, via da zona leste da capital paulista que liga bairros dos distritos Itaquera e Penha à marginal do rio Tietê.
Além de compartilharem o curso d’água, essas localidades dividem a liderança no crescimento dos pontos de alagamentos registrados na cidade no intervalo de 15 anos, segundo levantamento da Folha de S.Paulo com dados do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) da Prefeitura de São Paulo.
Itaquera passou de 7 ocorrências em 2010 para 62 em 2024, um aumento de quase 800%. Na Penha, os registros subiram 180%, indo de 25 para 70 no mesmo intervalo.
O crescimento dos alagamentos em pontos da zona leste vai na contramão da queda média de 48% observada em todo o município no período o recuo foi de 1.364 para 707, além de indicar migração do problema do centro expandido para regiões periféricas.
Para identificar locais com alagamentos recorrentes e reduzir redundâncias, os dados coletados do CGE foram agrupados por subprefeitura, distritos e coordenadas geográficas considerando raios de 110 metros.
Mudanças no padrão das chuvas, expansão urbana e obras de drenagem concluídas em alguns bairros e incompletas em outros explicam parte do fenômeno, disseram especialistas à Folha de S.Paulo.
Até mesmo a queda generalizada dos alagamentos precisa ser avaliada com cautela, já que a força de trabalho responsável por fornecer essa informação ao CGE caiu 48% no período analisado. O número de agentes municipais de trânsito atuando nas ruas recuou de 2.300 para 1.200, aproximadamente, segundo o sindicato da categoria.
Redução de pessoal que a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirma ter compensado com o uso de tecnologia, além de ter passado a contar com apoio da Guarda Municipal e da Polícia Militar.
Se tomada como correta a constatação de redução dos alagamentos na cidade, ainda restaria explicar o porquê do aumento em algumas localidades.
Para buscar respostas, a Folha de S.Paulo percorreu vias que mais registraram alagamentos em 2024, nas bacias dos córregos Tiquatira, na Penha, e Jacu, em Itaquera.
Ambas contam com obras de drenagem recentemente realizadas pelo município e pelo governo estadual. Nas duas áreas moradores contam, porém, que os alagamentos do ano passado foram mais severos.
É no caminho do córrego Rio Verde que está a movimentada rua padre Viegas de Menezes, próxima ao centro de Itaquera. Uma faixa presa entre postes agradece ao prefeito pela canalização do córrego. Mas a obra não resolveu a questão, diz o aposentado Wilder Brito, 68. “Os moradores jogam muito lixo aqui, entope tudo”, reclama o morador.
Estudos de viabilidade ambiental encomendados pela prefeitura indicam que, além de limpeza e canalizações, as bacias do Tiquatira e do Jacu requerem a construção de reservatórios. Dois previstos para Penha estão em fase de estudos e o de Itaquera em licitação a ser concluída em maio, segundo a gestão Nunes.
Piscinões podem ter impacto direto na solução, como ficou evidente no levantamento da Folha de S.Paulo.
O Butantã (zona oeste) havia registrado 184 ocorrências em 2010, número que despencou para 29 em 2024 queda de 84%. A queda nas cheias coincide com a construção do piscinão do Sharp na bacia do córrego Pirajussara, afluente do rio Pinheiros.
Reduções similares ocorreram no Ipiranga (de 46 para 10), na Mooca (de 180 para 47) e em Pinheiros (de 209 para 52).
A prefeitura afirma que entre as razões para São Paulo ter chegado à menor média de alagamentos da história está um investimento recorde de R$ 7,8 bilhões em obras, serviços, manutenções e intervenções no sistema de drenagem desde 2021.
Obras de macrodrenagem, como o reservatório inaugurado há 15 anos no Pirajussara, são efetivas para amenizar alagamentos, confirma Fernando Dornelles, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Ele observa, porém, que alterações climáticas e no monitoramento podem distorcer os registros.
Independentemente da precisão do histórico anotado pelo CGE paulistano, o deslocamento dos pontos de alagamento em São Paulo reforça a urgência de planos amplos e integrados para tornar as cidades resilientes diante de tempestades mais intensas. “Está chovendo menos, em média, mas as tempestades estão mais fortes”, explica a meteorologista Isabelly Costa, do Inpe.
O temporal que atingiu a cidade de São Paulo em 24 de janeiro, por exemplo, foi o mais intenso da série histórica.
Eventos extremos têm colocado à prova as obras contra enchentes, diz Joni Matos Incheglu, engenheiro do Crea-SP que atua em projetos de urbanização na capital. “Os planos de drenagem projetam cenários de chuva para cem anos, mas os intervalos entre eventos extremos estão cada vez mais curtos”, diz.
Incheglu destaca que a capital paulista possui robusto planejamento contra enchentes, mas ressalta que a questão depende também de planos regionais, integrando municípios.
O rio Tietê, por exemplo, já chega à capital carregando sedimentos e lixo que contribuem para enchentes na cidade.
As vias marginais do Tietê e do Pinheiros possuem, aliás, o maior número de alagamentos registrados no período analisado pela reportagem, somando 743 e 463, respectivamente. As avenidas Alcântara Machado (251 ocorrências), 23 de Maio (171), Aricanduva (162), Cruzeiro do Sul (149) e do Estado (147) também compõem o ranking das pistas com maior histórico de alagamentos.
Construir e atualizar planos municipais de drenagem e tornar permanentes o desassoreamento do Tietê e do Pinheiros estão entre as prioridades da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), segundo a secretária estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura, Natália Resende.
Ela afirma que uma PPP (Parceria Público Privada) para limpeza dos leitos e requalificação das margens, com duração de 20 anos e investimento de R$ 10 bilhões, está prevista para ser lançada ainda neste ano.