SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As dioneias (Dionaea muscipula), também conhecidas como papa-moscas de Venus, famosas plantas carnívoras cuja forma parece uma armadilha de urso para capturar moscas e outros insetos, parecem ter uma convergência evolutiva no reino animal, justamente entre os insetos.
Ao analisarem um conjunto de 16 fósseis de vespas do Cretáceo encontradas em Mianmar e preservadas em âmbar, cientistas descobriram um mecanismo similar à planta carnívora nos himenópteros (nome dado à ordem de insetos que inclui vespas, formigas e abelhas).
Os pesquisadores são da Universidade Capital Normal de Pequim, do Museu do Âmbar de Xiaohong de Pequim, ambos na China, e do Museu de História Natural da Universidade de Copenhague (Dinamarca).
De acordo com eles, a vespa fóssil, batizada de Sirenobethylus charybdis, faz parte do grupo de vespas parasitóides do clado Chrysidoidea, que inclui atualmente mais de 10 mil espécies viventes.
A armadilha teria um papel importante na imobilização do potencial alvo enquanto o animal insere os ovos através do órgão ovipositor, localizado na região posterior do abdômen, mesmo local onde foi encontrada a estrutura “papa-mosca”.
Os achados foram publicados no último dia 26 na revista especializada BMC Biology (do grupo Nature).
Os autores analisaram a morfologia dos fósseis por meio de tomografia computadorizada e descreveram a anatomia única do inseto, cuja idade estimada é de 99 milhões de anos (Cretáceo Superior). Depois, compararam os espécimes com abelhas, formigas e outras vespas em uma análise filogenética incluindo espécies fósseis e atuais para analisar sua relação na história evolutiva do grupo.
Como a estrutura não tem paralelo em toda a diversidade de formas conhecida até então dos himenópteros, foi criada uma nova família de vespas fósseis, batizada de Sirenobethylidae, formada por enquanto somente pela espécie descoberta.
“O provável mecanismo de captura encontrado no abdômen de Sirenobethylus é diferente de qualquer estrutura de qualquer vespa fóssil ou viva conhecida até agora na verdade, diferente de qualquer outro inseto”, disse à reportagem Lars Vilhelmsen, professor associado da Universidade de Copenhague, curador do Museu de História Natural do instituto e um dos autores do estudo.
Como todos os indivíduos analisados eram fêmeas, os cientistas não descartam a possibilidade de o aparelho ser usado na cópula, uma vez que não tinham machos para comparar. Porém, eles consideram tal hipótese remota, uma vez que em geral são os machos, e não as fêmeas, que agarram os seus parceiros durante a reprodução sexuada.
Além disso, são as fêmeas de vespas parasitóides que colocam os ovos no hospedeiro. Para Vilhelmsen, a descoberta “bizarra” expande a morfologia e os tipos de comportamentos potenciais dos himenópteros, um grupo já bastante diverso de insetos alados.
“Os achados fósseis sugerem que a diversidade atual não abrange toda a variedade de formas e hábitos ecológicos que o grupo experimentou ao longo de sua existência geológica de fato, quanto mais aprendemos sobre a vida dos insetos há 100 milhões de anos, mais descobrimos que ela era pelo menos tão diversa quanto é hoje”, afirma.
O âmbar da região de Mianmar é conhecido por ser um tipo de preservação excepcional de diversos organismos, incluindo animais vertebrados (como dinossauros, aves e mamíferos) e invertebrados (como insetos) do período final do Cretáceo asiático. Dessa forma, ele guarda tesouros importantes para a compreensão da história evolutiva dos seres vivos.
Porém, questões éticas foram levantadas nos últimos anos por pesquisadores envolvendo a forma de extração desse material, uma vez que o país vive um regime autoritário e há relatos de exploração dos trabalhadores nas minas. Além disso, alguns materiais muito bem preservados descritos no passado se mostraram serem manipulados.
Isso fez com que a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados americana divulgasse uma carta, em 2021, em que diz que a situação no país asiático se deteriorou após a tomada do regime ditatorial, e colocasse uma moratória na publicação de qualquer material fóssil vindo da região.
Ao ser perguntado sobre a origem dos fósseis, o professor da Dinamarca disse que ele foi levado em 2023 à Copenhague por seu colega, o professor Taiping Gao, como parte de um lote maior de peças de âmbar adquirido há cerca de uma década pelo laboratório, e que estes materiais foram analisados por ele até serem devolvidos à coleção, em 2024. Segundo Vilhelmsen, o material foi obtido ou doado a partir de um colecionador particular ao instituto chinês.
“Essa é uma preocupação séria e se torna ainda mais pertinente pela dificuldade de rastrear a origem exata do material de Mianmar em muitos casos. Tive que pesar preocupações éticas com a possibilidade de fazer uma descoberta científica empolgante como todos os pesquisadores. Sou cientista, estudo a evolução dos insetos e considerei tal oportunidade única como forma de fazer uma contribuição científica relevante para esse tópico. Não acho que haja uma solução simples para esses dilemas”, disse.