SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Pelo segundo dia seguido, a China simulou um cerco a Taiwan —desta vez, usando munição real, segundo Pequim, embora Taipé afirme não ter identificado qualquer tiro nas proximidades da ilha.

O Comando do Leste da China disse nesta quarta-feira (2) que, como parte do exercício batizado de Trovão do Estreito-2025A, suas forças terrestres realizaram manobras de tiro real de longo alcance nas águas do Mar da China Oriental, sem dar uma localização exata.

“Os exercícios envolvem ataques de precisão em alvos simulados de portos-chave e instalações de energia, e alcançaram os efeitos desejados”, anunciou a unidade. O Ministério de Defesa de Taiwan disse, porém, não ter registrado nenhum tiro real ao redor da ilha.

Na noite de terça-feira (1º), a Administração de Segurança Marítima da China anunciou que uma área ao norte da província de Zhejiang, a mais de 500 quilômetros de Taiwan, permaneceria fechada até quinta-feira (3) à noite devido a exercícios militares —região fora da zona de resposta da ilha, segundo afirmou à agência de notícias Reuters um funcionário de alto escalão do setor de defesa taiwanês.

Seja como for, a mobilização se junta a outras hostilidades dos últimos dias entre Taipé e Pequim. Nesta terça, o Exército da China enviou dezenas de aviões e navios de guerra para o entorno da ilha —provavelmente uma retaliação à visita do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, à Ásia, onde repetidamente criticou Pequim.

Semanas antes, o presidente taiwanês, Lai Ching-te, havia chamado a China de “força estrangeira hostil” —o político foi retratado como um verme em uma publicação nas redes sociais do Comando do Leste de Pequim.

Após o anúncio do Exército chinês, o Departamento de Estado dos Estado Unidos ressaltou que as manobras “servem apenas para aumentar a tensão e colocar em risco a segurança da região e a prosperidade mundial”.

Os exercícios acontecem nas partes central e sul do estreito, uma rota vital para o comércio mundial, segundo o Exército. Na véspera, a China enviou suas forças terrestre, naval, aérea e de foguetes para cercar Taiwan, que também mobilizou suas tropas.

Nos últimos anos, a China recorreu diversas vezes ao envio de suas forças para o entorno de Taiwan, que, mesmo com pouco reconhecimento diplomático oficial, tem governo, moeda e militares próprios.

As Forças Armadas chinesas qualificaram os exercícios como uma “advertência firme e dissuasão enérgica” aos supostos separatistas de Taiwan, governada desde 2016 por um partido que defende a soberania da ilha frente à China. Em resposta, o governo de Taiwan mobilizou aviões e navios de guerra e ativou o sistema de mísseis de defesa.

A tensão entre os dois territórios aumentou com a posse do presidente taiwanês, em maio de 2024. Lai mantém uma postura mais firme a favor da soberania de Taiwan que sua antecessora e colega de partido, Tsai Ing-wen, com quem Pequim teve atritos consideráveis.

As manobras foram acompanhadas por advertências ameaçadoras de Pequim. A porta-voz do Escritório de Assuntos de Taiwan, Zhu Fenglian, alertou que buscar a independência é “empurrar o povo taiwanês para uma situação perigosa de guerra”.

O gabinete da presidência de Taiwan condenou “a escalada no comportamento da China”. O primeiro-ministro Cho Jung-tai disse que “recorrer a demonstrações de força militar não é o que as sociedades modernas e progressistas deveriam buscar”.

Lin Ying-yu, professor de Assuntos Internacionais da Universidade Taiwanesa de Tamkang, afirmou que, com os exercícios, a “China quer testar a linha vermelha dos Estados Unidos”.

A disputa entre Pequim e Taipé remonta a 1949, quando as tropas nacionalistas de Chiang Kai-shek perderam a guerra civil para os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung e fugiram para Taiwan.