SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Há cerca de cinco anos, sob a gestão de Reynaldo Passanezi, a Cemig iniciou um plano extenso de venda de ativos da empresa, sob o argumento de que era necessário simplificar o portfólio. A estratégia, no entanto, foi alvo de uma série de críticas de setores políticos de Minas Gerais, que viram nas negociações uma forma de agilizar a privatização da empresa -uma das prioridades do mandato do governador Romeu Zema.

A estratégia foi parar no Tribunal de Contas de Minas Gerais. A oposição de Zema denunciou que a venda das ações da empresa na Aliança Energia para a Vale, por exemplo, e o desejo de negociar ações da Taesa seriam uma espécie de “privatização branca”, quando a empresa-mãe vende subsidiárias valiosas para a iniciativa privada, evitando o trâmite político de venda da controladora.

Passanezi, no entanto, diz que a venda dos ativos visa gerar capital suficiente para aumentar os investimentos em Minas Gerais, onde está o maior mercado da Cemig. Nos últimos anos, a empresa vendeu sua participação na Light, Aliança Energia, Renova Energia, hidrelétrica de Santo Antônio, Axxium e Ativas Data Center -negócios que renderam ao menos R$ 4 bilhões aos cofres da empresa.

No ano passado, a empresa também recebeu R$ 52 milhões pela venda de quatro hidrelétricas. A venda, aliás, será tema de audiência pública na Assembleia na quarta-feira (2).

Essas negociações, segundo Passanezi, foi o que permitiu a Cemig aumentar em seis vezes seus investimentos em relação a 2018, último ano da gestão petista em Minas Gerais. “O foco sempre foi como é que a gente vai voltar a ser indutor do desenvolvimento de MG e como é que a gente vai melhorar a qualidade do atendimento para o cliente que usa energia em Minas”, afirma em entrevista à Folha de S.Paulo, durante evento da BloombergNEF.

Ele também comentou sobre os planos do grupo na geração distribuída (GD), o negócio que mais cresce no setor energético atualmente no Brasil -o que vem incomodando as distribuidoras e grandes geradores de energia.

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PERGUNTA – Distribuidoras e grandes produtoras de energia dizem que os incentivos à GD são os responsáveis pelos cortes de geração de energia no Nordeste. Mas ao mesmo tempo em que a distribuidora do grupo faz as críticas, a Cemig tem aumentado seus investimentos no setor. Qual é o posicionamento do grupo?

REYNALDO PASSANEZI – A gente sempre recebeu de muito bom grado o investimento em GD; a área de concessão da Cemig é a que mais tem GD no Brasil, nós temos 4,5 GW de GD instalada. Nós tivemos mais de 500 mil pareceres de acesso analisados nos últimos cinco anos e mais de 300 mil unidades contratadas, então sempre demos o apoio para o crescimento de GD.

Mas é necessário analisar como a GD se insere dentro do sistema interligado brasileiro. Hoje nós temos uma situação em que quem tem geração centralizada, seja eólica ou solar, sofre os efeitos dos cortes, e a GD não. Então é essencial que a gente consiga conciliar toda essa expansão da oferta e toda essa intermitência e essa maior complexidade que o sistema tem, tratando também de forma mais semelhante os vários segmentos da indústria.

P – Mas a Cemig defende um aperto nas regras para evitar a expansão desenfreada da GD?

RP – O que nós apoiamos é uma discussão sobre todos esses assuntos. Acho que o importante é a gente discutir e entender todos os efeitos sistêmicos de GD, de geração centralizada, solar e eólica, da intermitência e da maior complexidade da operação do setor elétrico brasileiro. E, óbvio, no nosso planejamento estratégico, nós seguimos com os nossos investimentos em todos os setores. Somos uma empresa verticalmente integrada e investimos em todos os setores: comercialização, geração centralizada, geração distribuída, transmissão, distribuição e também um pouquinho de gás.

P – Uma vez que a taxa de retorno dessas fazendas solares é maior do que das próprias distribuidoras, a Cemig SIM (braço da Cemig responsável pela GD) tende a ganhar mais espaço no orçamento do grupo?

RP – Não, nós temos R$ 49 bilhões de investimentos considerando 2019 a 2029 e mais de 80% disso é distribuição e transmissão. O nosso objetivo é trabalhar no sentido de prover infraestrutura, esse é o grosso do nosso investimento, para ser indutor do desenvolvimento de Minas Gerais. Todo esse investimento é 100% em Minas.

P – O governador Romeu Zema nomeou aliados para liderar empresas que podem ser vendidas para a União ou para a iniciativa privada. No caso da Cemig, ele te pediu para preparar a empresa para essas negociações?

RP – O mandato que o governador me deu foi melhorar a qualidade da prestação de serviço e investir em Minas. O mandato nosso é como é que a gente consegue voltar a ser indutor do desenvolvimento de Minas e acho que tudo que nós fizemos foi com esse objetivo. A Cemig investiu R$ 958 milhões em 2018, no ano passado nós investimos R$ 5,5 bilhões e neste ano nós vamos investir R$ 6,5 bilhões.

A gente investia menos do que a depreciação no setor de distribuição e no ano passado nós investimos quatro vezes e neste ano vamos investir cinco vezes a depreciação. Então, o foco sempre foi como é que a gente vai voltar a ser indutor do desenvolvimento de MG e como é que a gente vai melhorar a qualidade do atendimento para o cliente que usa energia em MG.

P – Mas o enxugamento da Cemig é para preparar a empresa para uma possível venda?

RP – De maneira nenhuma. Para a gente poder investir R$ 5,5 bilhões em MG, a gente desinvestiu em ativos complexos. Nós, por exemplo, saímos de Light, saímos de Renova, saímos de Santo Antônio e utilizamos todos esses recursos para investir 100% em Minas.

Posso te garantir que esses recursos teriam demandado aumentos de capitais que teriam impedido a gente de fazer investimento em Minas. Se você olhar o quanto valorizou a ação (da Cemig), você vai ver que nós estamos valorizando o patrimônio público; a ação cresceu mais de 600% desde 2018.

Você sabe muito bem que Light entrou em recuperação judicial, que Renova entrou em recuperação judicial, que Santo Antônio teve uma grande ampliação de capital, então tudo isso teria significado para Cemig aportes de recursos. Ao final, nós não só não fizemos esse aporte, como recebemos recursos por esses desinvestimentos para poder exatamente conseguir fazer esses R$ 5,5 bilhões.

P – Como está a situação da Taesa?

RP – A Cemig segue com a mesma participação que tinha, mas nosso plano é fazer o desinvestimento de todos os ativos em que nós temos participações acionárias e que não somos o único controlador e não tem o foco de investir em MG. Então, a Taesa segue no plano de desinvestimento. Isso está no nosso planejamento estratégico, mas nós precisamos ter efetivamente interessados na compra da Taesa.

P – Uma eventual federalização ou privatização da empresa poderia acionar o tag along (quando os acionistas minoritários podem vender suas ações para o novo controlador)?

RP – Federalização é um tema do acionista e é um processo que exige o apoio do Poder Executivo e do Poder Legislativo. Então qualquer discussão sobre corporação ou federalização precisa do desejo do Poder Executivo e do ok do Poder Legislativo de Minas.

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RAIO-X | REYNALDO PASSANEZI

Doutor em economia pela USP, já foi presidente da ISA CTEEP (atual Isa Energia), além de diretor do BBVA Brasil. Também foi assessor do Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização do governo do estado de São Paulo. Hoje, também presidente do Conselho de Administração da Taesa.