SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O 14° DP, localizado em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, recebeu o maior número de queixas de roubo da capital no primeiro bimestre deste ano.

Foram 602 notificações -271 em janeiro e 331 em fevereiro. No mesmo período do ano passado, foram 549 -226 em janeiro e 323 em fevereiro.

Outros tipos de crime também aumentaram na região, na comparação entre bimestres: lesão corporal com intenção (63 casos neste ano contra 46 em 2024), estupro (6 contra 3) e furto de veículos (107 contra 92).

Esse cenário tem levado moradores e quem precisa passar por Pinheiros e pela Vila Madalena a mudar a rotina, evitando determinadas ruas ou deixando de levar o aparelho celular durante caminhadas.

A biomédica Simone Gouveia, 49, já chegou a se jogar ao lado dos carros quando viu um motoqueiro passar na rua. “Sei que é triste, mas a gente acaba julgando as pessoas por conta do trauma”, diz.

“Tem gente que tem medo de sair para levar o cachorro para passear”, afirma Veronica Bilyk, 58, presidente da Associação dos Moradores dos Prédios Tombados. “O policiamento aumenta logo depois de uma tragédia, como as mortes que tivemos recentemente, mas volta ao normal poucos dias depois”, diz.

Moradora do bairro há 11 anos, ela sofreu uma tentativa de assalto há dois anos, quando ia para o trabalho. “O homem estava numa moto e queria tirar a minha aliança. Fui salva por um carro que passou perto quando eu gritei”, diz. Depois disso, ela parou de andar na rua com a aliança e outros objetos de valor e desinstalou do celular aplicativos de bancos.

A cozinheira Patrícia Costa, 45, foi atacada quando seguia para a estação Fradique Coutinho do metrô, no fim de fevereiro. O ladrão estava de bicicleta, com uma mochila nas costas e capacete, segundo ela. “Ele arrancou meu celular. Parecia estar me seguindo e aproveitou um momento em que peguei o aparelho.”

Como no caso da biomédica, alianças e celulares são os objetos mais visados pelos criminosos na região, principalmente a bordo de motocicletas, segundo a polícia, que garantem a fuga mais ágil. Ainda segundo investigadores, parte dos objetos roubados acaba em grandes favelas da capital ou em lojas no centro.

O aumento de roubos em Pinheiros ocorre no momento em que crimes do tipo caem na região central da cidade. A área recebeu reforço no policiamento após diversas ocorrências de violência, saques e mortes no entorno da cracolândia.

O 1° DP (Sé), por exemplo, viu queda de 19% nos registros de roubo. No 3° DP (Campos Elíseos), o recuo foi de 40%, também na comparação entre os bimestres deste ano e de 2024. Por outro lado, os distritos policiais no Campo Limpo e no Capão Redondo, ambos na zona sul, registraram 582 e 539 ocorrências do tipo, respectivamente.

Em nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) disse que a comparação entre bairros de diferentes regiões não é adequada, pois cada área possui características sociais e geográficas distintas. “A pasta tem investido constantemente no fortalecimento da segurança pública, com a ampliação do efetivo policial, além de incorporar novas tecnologias e recursos que possibilitem ações mais eficazes para reduzir a criminalidade e melhorar os indicadores de segurança em todas as regiões”.

Conforme o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), a zona oeste recebeu uma reorientação do policiamento, com o reforço das operações de patrulhamento em áreas mais vulneráveis, como os centros comerciais e as principais vias de circulação. Em janeiro e fevereiro foram presos 1.064 infratores, diz, um aumento de 15% em comparação com o mesmo período de 2024.

Para Alan Fernandes, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a situação em Pinheiros é resultado justamente da concentração de policiamento no centro.

Segundo ele, é preciso fiscalizar pontos de receptação, incluindo medidas administrativas para comércios com esse histórico. “[É preciso dar] Ênfase à vigilância e à prisão de receptadores, mais que de roubadores.” Ele também defende aumento das fiscalizações de pessoas em motocicletas, que, em geral, são utilizadas por esses criminosos.

Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, também cita o reforço no policiamento na região central como uma possível fator para a migração dos ladrões.

“Tem uma estratégia do estado que é investir muito mais exclusivamente em policiamento ostensivo, que não dá conta. Isso faz com que o policiamento ostensivo sature uma área. De fato, os roubadores podem se deslocar, mas eles acabam indo para outro lugar e muitos estão indo para Pinheiros”.

Carolina defende investimento no trabalho investigativo, realizado pela Polícia Civil, e atuação mais firme por parte da Prefeitura de São Paulo, com a fiscalização de pontos de venda e revenda de celular usado. “Tem toda uma cadeia e uma especialização das quadrilhas, desde saída do aparelho para outros países até toda parte de quem opera o crime digital, de acesso a bancos. É preciso inteligência investigativa e apoio da prefeitura.”