SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um senador democrata começou na noite de segunda-feira (31) um discurso inflamado contra as “ações inconstitucionais” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele só terminou 25 horas depois, na noite desta terça-feira (1º), já no topo da lista das falas mais longas na Casa.

Ao ser informado de que havia batido o recorde, Cory Booker, 55, calou-se por uns momentos enquanto era aplaudido pelos membros do Senado. Visivelmente emocionado, ele enxugou o suor do rosto e continuou falando. No total, o discurso durou 25 horas e cinco minutos.

Para manter sua chance de discursar, Booker nem sequer pôde ir ao banheiro durante todo esse período. Sua fala não impediu que o Partido Republicano, majoritário no Senado, realizasse votações, mas pode servir de exemplo para os democratas, cuja oposição ao governo Trump tem sido morna na maioria das frentes.

Como seu discurso não ocorreu durante a votação de um projeto de lei, tecnicamente não se tratou de um boicote ou obstrução. Mas foi a primeira vez durante o mandato de Trump que os democratas bloquearam de alguma forma o Senado.

O discurso de Booker tornou-se o mais longo da história do Senado dos EUA feito por um só parlamentar -houve casos com maior duração em que senadores se revezaram para bloquear alguma votação.

As falas individuais mais extensas antes eram de Strom Thurmond, com 24 horas e 18 minutos, em 1957, contra a Lei dos Direitos Civis, e de Alfonse D’Amato, com pouco mais de 23 horas, em 1986. Booker também ultrapassou Wayne Morse, que fez uma obstrução de 22 horas e 26 minutos, em 1953, e Ted Cruz, que discursou por 21 horas e 19 minutos, em 2013, em oposição à lei federal conhecida como Obamacare, que instituiu mudanças no sistema de saúde nacional.

“Levanto-me esta noite porque sinceramente acredito que nosso país está em crise”, disse Booker, legislador por Nova Jersey, no início do discurso. “Estes não são tempos normais nos Estados Unidos”, declarou, com a voz embargada.

O discurso teve ampla repercussão nas redes sociais. Segundo a equipe do democrata, a transmissão ao vivo da fala no TikTok recebeu mais de 280 milhões de curtidas.

Pré-candidato presidencial pelo Partido Democrata em 2020, Booker tomou a palavra pouco depois das 19h locais (20h em Brasília) de segunda-feira. Atravessando a madrugada, atacou as políticas radicais de cortes de gastos de Trump, que levaram Elon Musk, o homem mais rico do mundo e um dos principais conselheiros do presidente, a eliminar programas governamentais sem o consentimento do Congresso.

O senador disse que Trump coloca em perigo a própria democracia americana ao acumular cada vez mais poder. “Americanos de todas as origens passam por dificuldades desnecessárias”, queixou-se. E algumas instituições “que são únicas em nosso país” são atacadas “de maneira imprudente, e eu diria até inconstitucional”.

“Em apenas 71 dias, o presidente dos Estados Unidos causou muitos danos à segurança dos americanos, à estabilidade financeira e às bases da nossa democracia”, argumentou Booker.

Os congressistas democratas, em minoria tanto no Senado quanto na Câmara, buscam uma forma de combater os esforços de Trump para reduzir o tamanho do governo, aumentar as deportações de migrantes e desmontar grande parte das normas políticas do país.

“Este não é um momento partidário, é um momento moral. Não é um momento de esquerda ou direita, é um momento de certo ou errado”, disse Booker. “Como podem concordar em cortar US$ 800 bilhões de Medicaid apenas para cortes de impostos que vão desproporcionalmente para os mais ricos?”, perguntou aos republicanos sobre o seguro de saúde oferecido a milhões de americanos de baixa renda. “Todos temos que nos levantar e dizer não.”

“Só quero te agradecer por manter a vigília por este país a noite toda”, disse o senador Raphael Warnock a Booker no plenário. Ao longo do discurso, ele também recitou poesia, falou de esportes e respondeu a perguntas de seus colegas.

Pouco antes de Booker iniciar a fala, segundo a revista Newsweek, um funcionário de sua equipe foi preso por supostamente portar uma pistola dentro do Capitólio. Kevin Batts foi barrado na segurança já que não teria a licença necessária para o porte -nos terrenos do edifício, segundo a polícia do Capitólio, armas de fogo não são permitidas para pessoas que não sejam agentes oficiais durante suas funções.