PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – Moradores da conhecida como a “rua mais bonita do mundo”, a Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre, ficaram sem energia na tarde desta segunda-feira (31), quando um temporal com ventos de até 110 km/h atingiu a região metropolitana da capital gaúcha.

O vento quebrou galhos que caíram por cima de prédios e da fiação elétrica. Segundo os moradores e frequentadores do local, desastres como esse são uma realidade na região devido ao que apontam como descaso da prefeitura com a demanda de poda de árvores na rua.

“Choveu, deu vento, acontece alguma coisa. É muito raro passar em branco”, comentou José Vilmar, 54, que precisou remover uma pilha de galhos da calçada para tirar o carro da garagem do serviço.

Localizada no bairro Independência, a Gonçalo de Carvalho tem apenas três quadras e é coberta de ponta a ponta por um corredor de árvores. O apelido de rua mais bonita do mundo surgiu na década de 2000, após uma fotografia se popularizar internacionalmente durante as obras de um shopping vizinho.

Desde então, a área arborizada e com sombra constante virou ponto turístico para os próprios porto-alegrenses.

“As pessoas vêm para cá tirar fotos, conhecer… É um negócio muito legal. E, de certa forma, há um descaso por parte do poder público”, disse o arquiteto Rodrigo Rosinha, 54, síndico de um dos prédios da rua.

Ao longo dos quase 500 metros da via, há cerca de cem árvores da espécie tipuana, também conhecida como amendoim-acácia. São árvores de copa alta, e algumas ultrapassam o sexto andar dos prédios.

O galho de uma delas bateu na sacada de Rodrigo e arrancou um pedaço do concreto. Ele não estava em casa durante o temporal, mas contou que sua esposa se escondeu em uma parte segura do apartamento porque o vento fazia as árvores baterem nas paredes do edifício.

“Deveriam ser tomadas medidas preventivas para diminuir os estragos que acontecem. É o que a gente tenta fazer junto à prefeitura, sem muito sucesso”, acrescentou Rodrigo. “Eles dizem que tem muita gente que reclama que não querem que faça a poda, as vezes falta equipamento adequado porque as árvores são muito altas, às vezes não tem equipe.”

Segundo relatos de moradores, denúncias para a prefeitura sobre o estado precário de algumas árvores são frequentes.

Esta é a segunda vez só neste ano que a rua registra algum tipo de dano por causa de ventos e chuvas fortes. Um temporal em janeiro também causou a queda de galhos. Um deles caiu no prédio de Laise Herrmann, 85, que mora na rua desde 1959.

“A gente já ligou várias vezes para a prefeitura”, disse Laise. “Às vezes caem os transformadores, e também ficamos sem luz”.

A moradora Laura Kortz, 62, conta que a falta de energia virou uma constante na rua com a queda de galhos, muitas vezes apodrecidos.

“Eu fico com medo de caminhar na rua, porque pode cair alguma coisa que eu não esteja vendo, algum galho que pode estar rachado”, relatou Laura. “É uma insegurança total. Tem que fazer alguma coisa. Tem que podar essas árvores ou enterrar a fiação.”

O titular da SMSUrb (Secretaria Municipal de Serviços Urbanos), Vitorino Baseggio (MDB), visitou a área na segunda-feira à noite e se comprometeu a realizar um novo encontro para receber as demandas dos moradores.

“É uma rua tombada pelo patrimônio histórico, então aquelas árvores são protegidas”, disse o secretário. Segundo ele, o tombamento e a oposição de alguns moradores ao manejo arbóreo cria uma situação complexa na Gonçalo de Carvalho. “O manejo pode ser a salvação de uma árvore, e não a destruição como alguns pensam”, continuou.

Baseggio diz que pediu à associação de moradores do local que oficiasse a secretaria para discutir o manejo das árvores com a mediação do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Segundo o secretário, a responsabilidade é dividida entre a prefeitura e a concessionária de energia –no caso, a CEEE Equatorial. Quando uma árvore tem contato com a rede elétrica, a a companhia de energia tem a responsabilidade de remover os elementos risco, como galhos na fiação. “Quando ela tirar esse risco, a prefeitura entra com o manejo”, diz.

Ainda segundo o secretário, nem sempre as companhias de energia se preocupam em deixar a copa da árvore podada de uma forma correta após atender uma situação de risco.

Procurada, a CEEE Equatorial ainda não se manifestou sobre o caso da rua. A companhia disse que já reestabeleceu a energia de 178 mil clientes no estado até a tarde desta terça-feira, e 82 mil ainda estão sem luz -desse total, 65 mil são em Porto Alegre.

O temporal que atingiu a cidade na tarde de segunda-feira também causou alagamentos e destelhamentos na cidade. Um caminhão tombou na pista de uma das pontes sobre o lago Guaíba devido à força dos ventos. De acordo com a PRF (Polícia Rodoviária Federal), o motorista teve ferimentos leves e foi encaminhado para atendimento.

Na cidade de Canoas, na região metropolitana, houve notificação de 256 residências com telhados danificados e 62 árvores derrubadas pelo vento. Ao menos cinco postos de saúde e 35 escolas reportaram danos.

Em Eldorado do Sul, na região metropolitana, as aulas nesta terça foram suspensas. Segundo a administração municipal, ao menos 260 casas foram destelhadas pelo temporal.

Também houve registro de destelhamentos e quedas de árvores em Bom Retiro do Sul, Butiá, Cachoeirinha, Inhacorá, Minas do Leão, Nova Santa Rita e Triunfo