SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Um programa de adoção do governo da Coreia do Sul enviou crianças e bebês ao exterior “como bagagem” para adoção ao longo das últimas décadas, segundo uma comissão que investigou o caso.

Exportação em massa de crianças. O relatório divulgado ontem pela Comissão Independente da Verdade e Reconciliação mostrou que agências de adoção agiram motivadas pelo lucro, mostrou uma reportagem publicada pela BBC. A investigação também encontrou exemplos de fraude, registros falsificados e coerção. Desde a década de 1950, a Coreia do Sul enviou mais crianças para adoção no exterior do que qualquer outro país.

Crianças foram registradas como órfãs pelas agências, mesmo tendo pais. Há casos, por exemplo, em que bebês morreram antes da viagem e outras crianças foram enviadas no lugar. A comissão recomendou que o governo sul-coreano faça um pedido de desculpas oficial.

Investigação começou em 2022. Desde então, 367 adotados – todos enviados ao exterior entre 1964 e 1999 – entraram com petições alegando práticas fraudulentas em seu processo de adoção. Cerca de 100 petições já foram analisadas, das quais 56 adotadas foram reconhecidas como vítimas de violações de direitos humanos. A comissão ainda está investigando outros casos, com o inquérito previsto para terminar em maio.

A estimativa é que mais de 170 mil crianças e bebês foram enviados para adoção desde a década de 1950. “Esta é uma parte vergonhosa da nossa história”, disse Park Sun-young, presidente da comissão, em uma coletiva de imprensa. “Embora muitos adotados tenham tido a sorte de crescer em famílias amorosas, outros sofreram grandes dificuldades e traumas devido a processos de adoção falhos. Mesmo hoje, muitos continuam a enfrentar desafios”.

Após a Guerra da Coreia, a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo. Na época, poucas famílias estavam interessadas em adotar crianças. Por isso, o governo sul-coreano iniciou um programa de adoção transnacional administrado por agências privadas, que receberam autorizações por meio de leis especiais de adoção. Segundo a investigação, houve uma “falha sistêmica na supervisão e gestão”.

“Por quase 50 anos após a Guerra da Coreia, o governo priorizou a adoção internacional como uma alternativa de baixo custo ao fortalecimento das políticas nacionais de bem-estar infantil”, afirmou a comissão no relatório. A comissão foi criada por uma lei do parlamento em 2020.

Agências estrangeiras exigiam um número definido de crianças todo mês e as agências coreanas obedeciam. A comissão cita que isso facilitava “adoções internacionais em larga escala com supervisão processual mínima”. Sem regulamentação governamental sobre taxas, as agências coreanas cobravam grandes quantias e exigiam “doações”, o que transformou as adoções em “uma indústria voltada para o lucro”, de acordo com o relatório.

Algumas adoções eram realizadas sem o consentimento adequado das mães biológicas. As agências também fabricaram relatórios que faziam as crianças parecerem abandonadas e colocadas para adoção. Como muitos adotados tinham identidades falsas listadas em seus documentos, eles agora têm dificuldade para obter informações sobre suas famílias biológicas.

A comissão também recomendou que o governo faça um levantamento sobre a situação de cidadania dos adotados. Medidas de reparação para as vítimas também são listadas no relatório como recomendações ao governo sul-coreano. A comissão da verdade não tem o poder de processar nenhuma das agências de adoção, mas o governo é obrigado por lei a seguir suas recomendações.