SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Yuval Abraham, cineasta israelense do documentário vencedor do Oscar “Sem Chão”, criticou a Academia por não se manifestar contra o ataque a Hamdan Ballal, codiretor palestino do longa.
Ballal foi atacado e ferido nesta segunda-feira (24) após um conflito entre colonos judeus e palestinos, na cidade de Susiya, na Cisjordânia. Enquanto recebia tratamento em uma ambulância, ele foi detido pelas Forças Armadas de Israel e passou a noite em uma base militar.
O cineasta foi solto na terça-feira (25), “após passar a noite algemado e ser espancado em uma base militar”, afirmou Abraham no X, ex-Twitter.
Uma petição pedindo a soltura do cineasta surgiu e acumulava mais de quatro mil assinaturas quando Ballal foi solto. Instituições de cinema como a Associação Internacional de Documentários se manifestaram no caso, mas a Academia ficou em silêncio.
“Infelizmente, a Academia dos EUA, que nos concedeu um Oscar há três semanas, recusou-se a apoiar publicamente Hamdan Ballal enquanto ele era espancado e torturado por soldados e colonos israelenses”, escreveu o jornalista israelense.
“A Academia Europeia manifestou apoio, assim como vários outros grupos de premiação e festivais. Vários membros da Academia dos EUA especialmente na seção de documentários pressionaram por uma declaração, mas foram recusados. Disseram-nos que, como outros palestinos foram espancados no ataque dos colonos, poderia ser considerado não relacionado ao filme, então não sentiram necessidade de responder.”
“Em outras palavras, enquanto Hamdan foi claramente alvo por fazer ‘Sem Chão’ (ele lembrou de soldados brincando sobre o Oscar enquanto o torturavam), ele também foi alvo por ser palestino como inúmeros outros todos os dias que são ignorados. Isso, ao que parece, deu à Academia uma desculpa para permanecer em silêncio quando um cineasta que eles homenagearam, vivendo sob ocupação israelense, precisava deles mais do que nunca. Ainda não é tarde para mudar essa postura. Mesmo agora, emitir uma declaração condenando o ataque a Hamdan e à comunidade de Masafer Yatta enviaria uma mensagem significativa e serviria como um dissuasor para o futuro”, conclui.
Ballal disse, ao portal ABC News, que foi agredido durante 10 a 15 minutos, e que havia a presença de soldados armados no local.
As autoridades israelenses detiveram indivíduos que jogaram pedras contra os colonos. “Eu não joguei pedras, não criei problemas com os colonos”, afirmou o diretor. “Eles viera m me atacar e me espancar. É isso”.
O prefeito de Susiya, Jihad Nawajaa, disse, à agência Reuters, que o conflito começou após os colonos tentarem roubar ovelhas de casas palestinas: “Os jovens saíram para impedi-los, e houve cerca de oito feridos do nosso lado”.
Ativistas do Center for Jewish Nonviolence, grupo de resistência civil, afirmaram à Associated Press que “um grupo de 10 a 20 colonos mascarados atacou [Ballal] e outros ativistas judeus com pedras e paus, e quebraram as janelas dos carros e cortaram os pneus.”
“Sem Chão” tem dois diretores palestinos, Ballal e Basel Adra, e dois israelenses, Abraham e Rachel Szor. O longa acompanha a luta de uma família palestina na cidade de Masafer Yatta, na região da Cisjordânia, cuja casa é removida pelo Estado de Israel.
Masafer Yatta foi designada como uma zona de treinamento pelo exército israelense em 1980. As Forças Armadas ordenaram a expulsão dos moradores da área, majoritariamente árabes beduínos.
Apesar de ser considerado território palestino, Israel detém o controle militar da Cisjordânia. Existem mais de 140 assentamentos de colonos na região e em Jerusalém Oriental. Palestinos que habitam o território estão sujeitos à lei militar israelense.