SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O fundador e presidente do conselho do BTG Pactual, André Esteves, disse estar com inveja dos americanos por causa do Doge, sigla para o departamento liderado pelo bilionário Elon Musk no governo de Donald Trump com a tarefa de cortar gastos.

Em evento nesta quarta-feira (26), o executivo disse que um departamento de eficiência governamental deveria ser obrigatório de tempos em tempos, como costuma ser feito no setor privado.

“Nossos governos não são diferentes de nossas empresas. Precisamos tentar buscar eficiência o tempo todo”, afirmou durante o BTG Conference.

O Doge foi um órgão criado por Trump para coordenar o corte de gastos federais e uma reestruturação do governo.

Como mostrou a Reuters nesta quarta (26), o governo dos Estados Unidos gastou mais durante o primeiro mês de mandato de Trump do que no mesmo período do ano anterior, sinalizando que o esforço de corte de custos ainda não conseguiu reduzir as pesadas obrigações fiscais do país, segundo uma análise de dados federais.

O governo americano gastou cerca de US$ 710 bilhões (R$ 4,1 tri) entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro, segundo dados de gastos diários do Tesouro, acima dos cerca de US$ 630 bilhões (R$ 3,6 tri) durante o mesmo período do ano passado.

No painel, Esteves entrevistou Kevin Warsh, que foi membro do conselho de governadores do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), e perguntou sobre o aumento nos gastos públicos visto ao redor do mundo.

“Todos nós temos uma espécie de ciúmes ao ver vocês nos EUA com a iniciativa Doge”, comentou o banqueiro. “Assumo que algumas pessoas na Austrália, na França e na Colômbia têm o mesmo sentimento”, acrescentou.

Segundo ele, o departamento é “extremamente bem-vindo”, embora difícil de medir até onde pode ir.

Durante o painel, Esteves questionou Warsh sobre a expansão de gastos vista pelas democracias ocidentais desde a pandemia.

O americano compartilhou da preocupação do banqueiro e disse que o mundo pode estar subestimando o que o Doge é capaz de fazer.

“Digamos que o Doge possa tirar US$ 1 trilhão do Orçamento dos EUA, um Orçamento de US$ 7 trilhões. Acho que é um grande número. Isso vai nos colocar no caminho da sustentabilidade? Provavelmente não. Mas acho que é algo importante”, respondeu o ex-Fed.

Para ele, o Doge sinaliza aos mercados que os EUA estão sérios em direção à responsabilidade fiscal e isso faz o governo ganhar tempo e se distanciar de um “ponto de virada”.

“Há muito teatro em torno do esforço do Doge, mas tendo a pensar que é uma necessidade fiscal”, afirmou.

Na avaliação de Warsh, operar no atual nível de déficit num momento de relativa paz e prosperidade faz com que os EUA não se preparem para choques.

“Entendo haver um aumento da dívida quando as crises atingem, os mercados entendem isso, as empresas e as famílias entendem isso. Mas temos mantido esses níveis de gastos por todas épocas”, afirmou. “A farra de gastos continuou muito mais tempo do que a crise.”

Para ele, gastos públicos prejudicam o crescimento sustentável e cada dólar tirado do governo federal é um dólar direcionado para o setor privado, disse Warsh.

“Acho que podemos ter algo nos EUA que é raro na história, raro nos livros didáticos. Podemos ter uma contração fiscal expansionista”, afirmou Warsh.